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16.5.10

93. campinas e o ben stiller

parece que só em campinas eu toco pra frente meu projeto...

2009 - Uma noite no museu 2 (Night at the museum: Battle of the Smithsonian)
2008 - Madagascar 2 (Madagascar: Escape 2 Africa) (voz)
2008 - Trovão tropical (Tropic thunder)
2008 - Marc Pease experience, The
2007 - Elmo's Christmas countdown (TV)
2007 - Antes só do que mal casado (Heartbreak kid, The)
2006 - Danny Roane: First time director
2006 - Tenacious D in: The pick of destiny
2006 - Escola de idiotas (School for scoundrels)
2006 - Uma noite no museu (Night at the museum)
2005 - Madagascar (Madagascar) (voz)
2004 - Sledge: The untold story
2004 - O âncora - A lenda de Ron Burgundy (Anchorman: The legend of Ron Burgundy)
2004 - Com a bola toda (Dodgeball: A true underdog story)
2004 - A inveja mata (Envy)
2004 - Starsky & Hutch - Justiça em dobro (Starsky & Hutch)
2004 - Entrando numa fria maior ainda (Meet the Fockers)
2004 - Quero ficar com Polly (Along came Polly)
2003 - Nobody knows anything
2003 - Duplex (Duplex)
2002 - Correndo atrás do diploma (Orange County)
2002 - Run Ronnie Run!
2002 - You'll never wiez in this town again
2001 - Os excêntricos Tenenbaums (Royal Tenenbaums, The)
2001 - Zoolander (Zoolander)
2000 - Mission Improbable (TV)
2000 - Produção Independente (Independent, The)
2000 - Entrando numa fria (Meet the parents)
2000 - Preto e branco (Black and white)
2000 - Tenha fé (Keeping the Faith)
1999 - The Suburbans - O recomeço (Suburbans, The)
1999 - Heróis muito loucos (Mystery Men)
1998 - Uma vida alucinante (Permanent midnight)
1998 - Seus amigos, seus vizinhos (Your friends & neighbors)
1998 - Quem vai ficar com Mary? (There's something about Mary)
1998 - Efeito zero (Zero effect)
1996 - O pentelho (Cable guy, The)
1996 - Procurando encrenca (Flirting with disaster)
1996 - Lado a lado com o amor (If Lucy fell)
1996 - Um maluco no golfe (Happy Gilmore)
1995 - Turma da pesada (Heavyweights)
1994 - Caindo na real (Reality bites)
1992 - Highway to Hell
1990 - A sorte no lixo (Working Tra$h) (TV)
1990 - Stella - Uma prova de amor (Stella)
1989 - Elvis stories
1989 - Marcados pelo ódio (Next of Kin)
1988 - Obsessão (Fresh horses)
1987 - Império do sol (Empire of the sun)
1987 - Hot pursuit
1987 - House of blue leaves, The (TV)

6.4.10

90. dicas domésticas do google

1) como limpar uma panela queimada:
eu e o desenho esquecemos que estávamos fazendo comida e queimamos toalmente o fundo de uma panela novinha. recorremos ao google pra ver se conseguíamos minimamente restaurá-la - embora a primeira reação tenha sido "joga isso fora e começa tudo do zero". deixar de molho no bicarbonato de sódio é a principal dica que corre pela internet. entretanto, conosco não funcionou, como no caso das malfadadas dicas para combater formigas. fizemos o possível, usamos bom-bril, bicarbonato, deixamos de molho. a panela continuou com o fundo preto devido ao queimado.
essa semana, novamente esquecemos que estávamos cozinhando - utilizando a mesma panela ainda não recuperada da vez anterior. queimou outra vez, mas agora ela está plenamente recuperada e eu vou revelar como: após queimar a primeira vez a sua panela, deixe novamente que ela queime, desta vez com arroz dentro dela. após dois dias que o resto de arroz queimado permaneceu lá dentro, grudado na panela (ao menos foi o tempo que ele permaneceu aqui conosco), pegue uma colher de sopa de inox e retire a grossa camada de arroz. passe uma esponja com detergente e - voilá! - sua panela está nova outra vez!!
sei que a dica é bastante obscurantista e não existe nenhuma prova científica de que irá funcionar com você. mas quem sabe com novas experiências empíricas nas residências brasileiras não teremos mais dados com que trabalhar sobre esta fascinante hipótese, hã?

2) como abrir uma lata de conservas:
eu e o desenho compramos uma lata de molho de tomate natural e ecológico na feira de agricultores ecologistas. ontem, tal molho comporia minha janta, sendo, inclusive, um de seus elementos primordiais. a lata simplesmente não abria. recorremos novamente ao google. entre as mais variadas combinações de esforços a fim de vencer a lata, encontramos um vídeo demonstrativo que faz tal tarefa parecer brincadeira de criança. ei-lo:



se você não tem o tamanho do moço aí em cima, a dica provavelmente não funcionará - ao menos comigo não funcionou. sei que dizer isso vai contra as leis da física, mas o fato é que não funcionou - nem sempre funciona nem mesmo nos laboratórios das melhores universidades, por que funcionaria na minha cozinha?!
fica a dica mais correta: tente abrir a lata antes do super fechar. retorne ao super e compre o molho de caixinha. utilize uma tesoura de cozinha e - voilá! - seu molho está perfeitamente acessível!

5.4.10

89. vladimir kokol

esta foi tirada do blog do felipeta, que tem feito ótimos posts sobre todos os filmes do herzog. o último foi sobre um documentário chamado, em português, "terra do silêncio e da escuridão", sobre pessoas cegas e surdas.
ele chama atenção para o caso, segundo ele o mais foda de todo o documentário, de um guri chamado vladimir kokol, com 22 anos de idade, nascido cego, surdo e com síndrome de down. tudo isso desde o nascimento. me lembrou de cara o kaspar hauser. a mesma temática: a cultura X a natureza (que, aliás, aparece em todos os filmes do herzog que eu já vi). o que faz de um humano um humano? e o que um ser humano é capaz de fazer em relação a coisas que lhe ultrapassam? este vídeo precisa ser assistido, sério.
o cara bate na própria cara, atira com força uma bola vermelha na própria cara, faz barulhos aparentemente sem sentido com a boca. ele já tem uma dificuldade cognitiva derivada da síndrome de down. e, ainda por cima, é cego e surdo.



esse caso do vladimir kokol é ótimo pra pensar isso. o cara é cego, surdo e tem síndrome de down. o mundo dele, desde o nascimento, é apenas o interior de sua própria cabeça e alguns toques casuais em pessoas ou objetos. ele nunca viu luz, nunca ouviu a voz de uma pessoa. ele não adquiriu linguagem.
pra pessoas como nós, que enxergam, ouvem, se movimentam e aprenderam coisas, é quase impossível pensar a comunicação entre as pessoas sem alguma forma de linguagem. mas como adquirir a tal linguagem em tais condições?
pior: como o vladimir interpreta seus próprios sentimentos? é necessário interpretá-los? em que medida razão e cultura caminham juntas? não tem como não lembrar do kaspar hauser:



um vídeo como esses aí acima a minha vizinha podia assistir de vez em quando. quem sabe um pensamento se esboçaria na sua mente, antes que ela pudesse colocar uma música muito ruim, muito alto.
vladimir kokol, meu...

88.

os invejosos servem pra nos convencer, cada vez mais, do quanto a gente é bom, né?

4.4.10

87. cinema e homossexualidades


A mostra de cinema promovida em parceria entre o Coletivo LGBT da UFRGS e a Sala Redenção será uma atividade de extensão e, como tal, gerará créditos aos(às) participantes. As sessões têm entrada franca e a atividade também dará direito a certificados pelos quais será cobrada a taxa regular da UFRGS.

Para conseguir os créditos e o certificado, será necessário participar das sessões comentadas que acontecerão durante a mostra. Confira abaixo a programação das sessões comentadas e agende-se!

Santiago (Brasil, 2007, 79min) de João Moreira Salles
09 de abril – 19h 
Debatedor: Paulo Faria, professor do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS

Filadélfia (Philadelphia, Estados Unidos, 1993, 128 min) de Jonathan Demme
16 de abril – 19h
Debatedor: Henrique Caetano Nardi, professor do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia da UFRGS.

Um amor quase perfeito (Le fati ignoranti,2001, 105min) de Ferzan Ozpetek
22 de abril – 19h
Debatedores: Tânia Cardoso, Coordenadora e curadora Sala Redenção e Alexandre Bello, doutorando em Educação pela UFRGS.


Wilde (Wilde, Reino Unido, 1997,118 min) de Brian Gilbert
23 de abril – 19h
Debatedor: Roger Raupp Rios, Juiz Federal e Corregedor da Justiça Federal da Quarta Região.


Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, Espanha, 1999) de Pedro Almodóvar
30 de abril – 19h
Debatedora: Kathrin Holzermayr Rosenfield, professora do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS.

86. "anão é anão e ponto"

falando em aguinaldo silva, achei legal postar uma entrevista que ele deu pro Ig falando sobre, of course, novelas. o interesse por essa entrevista está no fato de que ele critica o óbvio: a helena negra do manoel carlos se comporta como uma personagem branca, não é racializada; os homossexuais das novelas da globo se comportam como casais hetero; e anão é anão.
embora a entrevista tenha sido para o Ig, retirei do seguinte site: http://www.geledes.org.br/


Aguinaldo Silva abriu ao iG as portas de sua casa, num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio, dias antes de embarcar para Lisboa, onde mantém residência. O autor concedeu a polêmica entrevista a seguir, rodeado de obras de arte garimpadas em leilões e feiras de antiguidades.

Sem rédeas, Aguinaldo assume um dos principais traços de sua personalidade: o gosto pela polêmica. "Eu não rejeito confusão, claro, adoro polêmica, sou barraqueiro mesmo", diz ele, às gargalhadas, sentado no amplo sofá de sua sala.

Essas polêmicas se traduzem em repercussão aos seus trabalhos. O próximo deles, a minissérie "Cinquentinha", da Globo, com previsão de estreia para 8 de dezembro, é um claro exemplo disso. Marília Pêra, que seria uma das protagonistas, abandonou as gravações por achar que sua personagem não teria o devido destaque. Aguinaldo dispara: "Marília é meio um Tim Maia da TV. O problema é que ela, quando não larga o trabalho, o faz muito bem, então você tem que perdoar", diz.

Aos 66 anos ele declara guerra ao "politicamente correto" que, segundo ele, tem dominado a pauta da teledramaturgia. "Isso está matando as novelas", dispara. E não poupa palavras para criticar a nova Helena de Manoel Carlos, interpretada por Taís Araújo em "Viver a Vida", da Globo. "O que falta à personagem é o componente racial. Você não pode ter uma atriz negra na novela como se fosse uma branca", diz ele, com a autoridade de quem já assinou seis minisséries e 13 novelas, cinco das quais entre as doze de maior audiência na TV brasileira, "Roque Santeiro", "Tieta", "Pedra sobre Pedra", "Fera Ferida" e "Vale Tudo", esta última escrita em parceria com Gilberto Braga.

Lançando seu 15º livro, "Deu no Blogão", uma reunião de alguns dos textos mais comentados no blog que mantém há dois anos, Aguinaldo fala sobre essas e outras polêmicas que o rondam.

iG: "Cinquentinha" só estreia em dezembro e já está cercada de polêmicas. Gosta disso?
Aguinaldo Silva: Não rejeito confusão, claro, adoro polêmica, sou barraqueiro (risos). Bate-boca é comigo mesmo. Me orgulho de vender meu peixe. Mas não apareço porque gosto de aparecer. O que aparece é o meu trabalho.

iG: O que você acha de a Marília Pêra ter desistido porque achou que seu papel era secundário?
AS:
Me preocupei em contar as falas das três principais personagens, e todas tinham o mesmo peso. Ela, Susana Vieira e Marília Gabriela. Ela não se sentiu bem, percebi isso desde a primeira reunião com elenco, não estava empolgada. E daí usou esse argumento, falando que a personagem era menor... Fiquei chateado porque ela assinou um contrato para fazer isso. Tem que pensar bem quando se assina um contrato, para não dar vexame depois.


iG: Voltaria a escrever um papel para ela, numa outra novela?
AS:
Olha, não sei. Na verdade, se você der uma olhada na sua história pregressa, ela já largou projetos, peças, filmes... Marília é meio um Tim Maia da TV. O problema é que, quando não larga o trabalho, ela o faz muito bem, então você tem que perdoar, fazer o quê? Nas três vezes que tentei ver um show do Tim, não consegui, porque ele não apareceu. Marília falta aos compromissos, como fazia Tim.


iG: O que é mais difícil, lidar com ego de atores ou definir um final coerente para seus personagens?
AS:
Ah, definir final coerente, pelo menos no meu caso. Não gosto de intimidade com atores. Qualquer dúvida deles com relação ao trabalho, tem que ser pelo intermédio de Wolf Maya, que é meu diretor. Se tiver que dar atenção a todos, não tenho tempo para escrever.


iG: Quem é o melhor autor de novelas hoje?
AS:
Não me faça essa pergunta! Que difícil. Nesse momento, se eu citar um nome estaria sendo apenas gentil. Todos os autores das oito se equivalem, cada um com seu estilo. Mas veja, sou o único autor de novela que só escreve para o horário das oito, em trinta e poucos anos de TV.


iG: Segundo o Ibope, das 12 novelas de maior audiência na TV, cinco são suas. Tem o segredo para ganhar o público?
AS:
Tenho sim. Minhas novelas são extremamente populares, não escrevo apenas para a elite. Existem autores brilhantes, como Manoel Carlos, que eu adoro, que nunca escreveram um sucesso de audiência porque são novelas mais voltadas à elite. O Leblon não é o Brasil. Há muito mais Baixadas Fluminenses do que Leblons pelo país.


iG: Você já frequentou a Baixada Fluminense?
AS:
Claro que já, principalmente quando fui repórter policial. Eu ia muito à Baixada. Como também vou ao Leblon!

iG: Há alguns anos, você criticou o fato de as novelas terem casais gays em suas tramas. Acha que há um exagero?
AS: Não é que haja um exagero. Eu não aguentava mais ver casais gays bem comportados, como reprodução de casais heterossexuais. É como essa novela atual do Maneco ("Viver a Vida"). O que falta a essa Helena (papel de Taís Araújo) é o componente racial. Você não pode ter uma atriz negra na novela como se fosse uma branca.

iG: Por que não?
AS:
Quantas vezes ouvi pessoas se referindo a Naomi Campbell como a modelo 'neguinha'! É preciso levantar essa questão das minorias. É como tratar casal gay como coisa comum. Por mais que os gays se comportem, serão sempre suspeitos. Essa é a verdade. Os jovens me olham com desconfiança, acham que vou atacá-los a qualquer momento (risos).

iG: Falando em Manoel Carlos, você gosta do 'elemento social' inserido nas novelas? Abordar, por exemplo, síndrome de Down, alcoolismo etc?
AS:
Odeio o politicamente correto. Isso está matando as novelas. O folhetim precisa ser politicamente incorreto, senão deixa de ser novela. Me recuso a entrar nessa onda. Anão é anão e ponto.

iG: Mudando de assunto, quando você percebeu que estava rico?
AS:
(risos) Não sei se sou rico, acho que não. Para os padrões brasileiros, tudo bem, sou sim. A conta do PT diz que quem ganha mais de um milhão e meio de reais é rico. Então, para os petistas, sou rico. A gente percebe que está bem quando perde a vontade de comprar. Fui a um outlet em Paris, recentemente, fiquei lá o dia inteiro e só comprei uma gravata. Não me interessei por nada.

iG: Está namorando?
AS:
As pessoas da minha idade não precisam de namorados, precisam de enfermeiros. Tenho quase 66 anos, mas me sinto 'cinquentinha' fisicamente.

iG: Por que resolveu reunir num livro alguns textos do seu blog?
AS:
Porque na internet as palavras ficam no ar e a palavra escrita tem peso maior do que qualquer outra coisa. Meus textos repercutem muito.

iG: Saberia dizer por quê?
AS:
Meu blog é provocativo, falo de costumes com uma linguagem de duplo sentido, abusando dessa provocação. Tenho acesso diário de 130 mil internautas.

iG: Aproveitando que você está sempre entre Rio e Lisboa, o que falta ao Brasil que Portugal tem de sobra? 
AS:
Falta ao Brasil uma noção de ética, que os portugueses cultivam. Ser ético no Brasil é sinônimo de ser otário. E quanto a Portugal, falta a eles bastante bunda! É o que o Brasil tem de sobra (risos).

85. as aventuras de tieta do agreste, pastora de cabras ou a volta da filha pródiga

tieta é de fato um livro envolvente. a temporada em são paulo me fez perceber a falha de nunca ter lido jorge amado, e agora talvez me anime a ir adiante no autor.
tenho apreciado fazer comparações entre o livro e a novela, e penso que aguinaldo fez um bom trabalho. alguns personagens ganham maior relevo, outros são sumariamente descartados da novela, mas acredito que tudo isso ocorreu para que o principal fosse mantido.


o legal de ler o livro ao mesmo tempo em que assisto aos capítulos da novela é perceber as sutilezas narrativas que os distanciam. narrar através de imagens é muito diferente de narrar através do texto literário. por exemplo: quando cardo, o seminarista, come a tia, seu sofrimento pelo medo do fogo no inferno é narrado, no livro, em duas ou três páginas, e parece suficiente ao leitor que assim seja. já na novela é necessário muito mais tempo para que o telespectador consiga ter a dimensão do peso que teve a saída do seminário, o abandono de deus e o apelo da tia.
o livro é um livro político, disfarçado na história de uma puta que volta rica pra cidadezinha onde morava. a novela não é uma novela política, ao menos não na mesma dimensão do livro. mas tem seus momentos.
no capítulo 48 há a explicitação de uma interessante metáfora que permite um pouco entender a adaptação desta obra do jorge amado para a televisão em 1989. a novela foi ao ar no período entre 14 de agosto de 1989 e 31 de março de 1990. o capítulo 48 foi exibido precisamente no dia 09 de outubro de 1989, uma segunda-feira. nesta fase da novela, zé esteves, o pai de tieta, que a escurraçou de santana do agreste cerca de 20 anos antes, está demonstrando que já tem poucos dias de vida. tem variado, pensa que tieta ainda é jovem e que ele ainda é um pastor de cabras a tocar o rebanho pela cidade. seu maior sonho é ter de volta as cabras que vendeu a jarde após a expulsão de tieta e, para realizar seu intento, pretende recorrer justamente à mesma tieta, já de volta à antiga cidade, ávida por vingança.
caduco, zé esteves vê coisas, ouve coisas, e algumas delas têm relação com o passado, quando, sem dó nem piedade, deixou tieta à própria sorte, pra ser mulher da vida pelas estradas do nordeste.
é justamente numa cena do capítulo 48 (por volta dos 40 min da cena) que a metáfora política da expulsão e do retorno de tieta é exposta.

zé esteves olha um calendário, o ano é 1989. de repente, em sua loucura senil, ele se vê novamente no dia em que mandou tieta embora a porretadas. o calendário que aparece a sua frente já não é mais de 1989, mas sim de 1968. o dia e o mês também são revelados: 13 de dezembro.
13 de dezembro de 1968, caralho! o dia da edição do AI-5!!!
suspensão das liberdades individuais, intervenção no judiciário, fechamento do congresso e cassação de mandatos. foi o recrudescimento da repressão durante a ditadura militar brasileira, iniciada com o golpe de primeiro de abril de 1964.
bom, aguinaldo silva faz referência direta a esta medida dos militares com a estratégia de utilizar o calendário de zé esteves para marcar a data. o velho, voltando à novela, retoma momentaneamente a razão e volta a enxergar o calendário original, o verdadeiro, o de 1989. o dia é 13 de novembro - ou seja, dois dias antes da primeira eleição direta para presidente no brasil após a redemocratização e após a nova constituição.
intrigante, não?
a expulsão de tieta é associada à edição do AI-5. na cena da expulsão, tieta está obviamente transando com lucas, apenas um de seus inúmeros casos no agreste, quando zé esteves aparece e a enche de porrada. em praça pública, pra todo mundo ver. perpétua, a irmã invejosa, foi quem dedurou, e nesta cena aparece muito satisfeita em ver tieta apanhar.
com exceção de uns poucos cachorros mortos, como tonha, dona milú e a jovem carmosina, ninguém sequer tenta evitar que tieta seja mandada embora pelo pai. dona milú até tenta pedir ajuda aos outros. o padre se abstém. o coronel artur da tapitanga parece até ter gostado do destino da "cabrita" que ele nunca teve. ninguém faz nada.
e tieta promete: vai, mas volta. mas não pra baixar a cabeça diante de toda a gente que não a quis. volta pra se vingar.



e, quando tieta retorna, em 1989, é ano eleitoral. como será que ela pretende empreender sua vingança?
mais intrigante ainda é o fato de aguinaldo silva ter se remontado, em sua metáfora, não ao dia exato do golpe militar (01/04/1964) - o que, aliás, fecharia com os tempos do romance de jorge amado, já que tieta retorna a santana do agreste 26 anos depois da expulsão pelo pai - , mas ao dia da edição do AI-5 - o que dá 21 anos depois. teria ele perdoado o golpe, em certo sentido?
bom, se relevou o golpe, mas não aceitou o AI-5 e todos os crimes cometidos após ele, eu não sei. entretanto, a campanha do lula (relembrando: os dois principais candidatos eram lula e collor), que ocorria televisivamente justamente na mesma época em que a novela ia ao ar, nos dá mais pano pra manga pra pensar. vejam só quem aparece:



aminthas, leonora, osnar, ascânio, a própria tieta, até o urubu azedo da perpétua e o capitalista modesto pires. todo mundo aparecendo na TV pra fazer campanha pro lulão. pra evitar totalmente os anacronismos e ELEVAR O NÍVEL da análise, restaria saber se esta propaganda era já para o primeiro turno, ou apenas para o segundo. mas isso eu não tenho saco de pesquisar agora.

UPDATE: foi campanha pro segundo turno. perpétua aparece com camiseta do partido verde, osnar exibe um lenço maragato brizolista no pescoço e etc.

1.4.10

84.

83. pechinchas

sempre tive uma adoração kitsch pelo kitsch.
lembro da vez em que eu, os velhinhos e o joão fomos a cambará - onde minha mãe viveu toda sua infância - e paramos num restaurante que parecia ser parte da própria casa das pessoas. tinha de tudo que tu puder imaginar pendurado pelas paredes: panos de pratos variados (em geral bordados e pintados por alguém dali mesmo), panelas, flores de plástico poeirentas, cabeças de bonecas e de bichos de plástico, coisas de plástico em geral, coloridas e penduradas. teias de aranha também, of course.
mais ou menos como nessa foto de joão urban, só que com MÓITO mais coisas:


todo o restaurante era assim.
a casa da minha vó era assim, e a do meu tio nelson, lá de cambará, idem. minha mãe curte também esse monte de penduricalhos. não sei se vou tãããão longe nas minhas concepções estéticas, mas igualmente gosto de certo tipo de objetos ou composição que passa por essa linha "interior do brasil". incluí, contudo, outros elementos. o quadro do maradona na cozinha é um pouco isso, mas é um "isso" já com os tais outros elementos, eu acho.
enfim, não vem ao caso agora, de todo modo. o foco deste post é que descobri, como já havia anunciado, alguns blogs bem interessantesinhos, cujo assunto principal é a reflexão sobre decoração construída por meio de pechinchas.
selecionei os dois melhores, na minha opinião.
o primeiro trata da busca por objetos de um e 99 ou assemelhados que possam garantir uma decoração divertida e afinada com os donos da casa. valoriza os excessos a la almodóvar e relíquias feitas de plástico, privilegiando as flores e os potinhos. também tem um quê de buscar objetos antiguinhos, ou que te capturem pela memória de bons momentos vividos, como estas xicarazinhas e travessas, iguaizinhas (estas últimas) às que minha mãe usava. na verdade, olhando bem, a da minha mãe não aparece nesta foto, não.

achei lindo e tem a vantagem de a moça escrever bastante bem.
o segundo trata de decoração de uma forma mais geral, mas priorizando aquilo que de fato pode ser tentado na sua casa. em muitos casos, quando o objetivo é esse, a pessoa apresenta banquetas feitas de garrafa pet ou outras tentativas de reutilização do lixo. não é o caso aqui. a moça também escreve muito bem e se interessa por mais uma série de assuntos bacanas, apresentando-os todos associados ao tema principal do blog. há uma tendência maior do que o primeiro a  propor reflexões sobre estilos de decoracão e suas respectivas matrizes, devidamente historicizadas. não vejo isso como um problema, ao contrário, acho que dá consistência ao blog. entretanto, as fotos são normalmente reapropriadas da internet, em vez de, como no caso do primeiro, serem em sua maioria fotos das bugigangas adquiridas pelas lojinhas. eventualmente aparecem fotinhos como esta:



me inspirei e adquiri bugiganguinhas lindas na feira de antiguidades do mercado público e no bazar londres (obviamente). outra hora mostro aqui. não sei bem como comecei no kitsch e vim parar aqui, passando pela casa da minha vó e pelo restaurante de cambará, mas ok. curto uma ilusão biográfica de vez em quando.

82. de um novo gênero narrativo de muito interesse

na semana passada precisei deixar uma reclamação no site reclame aqui devido a alguns problemas que tive com uma compra pela internet.
após relatar o meu problema, obviamente fui ler os relatos alheios. e, com certeza, aí está mais um gênero interessantíssimo: as reclamações contra empresas feitas pela internet.
o objetivo dos relatos é bem claro: difundir o mau atendimento recebido por parte de alguma empresa qualquer, descrever minuciosamente a situação que o levou a reclamar, apontar as injustiças que você pensa ter vivido e exigir uma reparação pública dos erros cometidos.
diante do objetivo prático de narrar uma injustiça a fim de obter uma reparação, a pessoa que se sente lesada precisa explicitar com clareza cada argumento que ela julga que pode lhe dar razão na disputa. evidentemente, a narrativa se refere a um fato ocorrido mais ou menos de acordo com a descrição dele oferecida. não é apenas uma narrativa ficcional, portanto, mas uma narrativa com um referente no real. isso não significa, claro, que este real tenha acontecido tal qual a pessoa narrou.
bom, em geral a pessoa relata seu problema, expõe uma série de mazelas que sofreu nas mãos da empresa e a dita cuja procura dar uma solução, ainda que parcial, ao caso. ou seja, as empresas normalmente não conhecem cada caso individual de seus clientes e, diante de uma reclamação pública, procuram contornar a situação do dilema de forma razoável.
um caso, dentro deste contexto, me chamou particular atenção. refere-se a uma moça que afirma ter adquirido alguns livros na livraria cultura e, possuindo as etiquetas de troca, tentou trocá-los por outros títulos. chegando à livraria, sua solicitação foi recusada, contrariando a prática habitual da empresa. a moça, sentindo-se lesada, reivindicou seu suposto direito de trocar os livros adquiridos.
como se não bastasse a narrativa dela, muito bem feita e recheada de bons argumentos, adjetivos e um enredo ótimo, a resposta da loja supera todas as expectativas. a livraria contra-argumenta trazendo uma nova versão dos fatos narrados pela cliente, demonstrando conhecimento sobre a situação particular dela, e apontando explicações razoáveis para a recusa da troca.
não dá pra saber quem tem razão nessa peculiar história, muito embora eu tenha já um favorito a este título. não, não vou dizer. apenas digo que, muitas vezes, ler essas narrativas reais pode ser bem mais interessante do que as ficcionais - bom, falou aqui a historiadora, que adora historinhas que realmente aconteceram. contanto que tenham um bom enredo, contudo.
é bom pra pensar sobre o lugar da narrativa nas nossas vidas cotidianas, e como nossas vidas são repletas de bons enredos. por isso adoro o woody. às vezes, lendo essas coisas que se acha na internet a gente até é bem capaz de esquecer que são pessoas reais que estão lá do outro lado da tela escrevendo e, mais do que isso, escrevendo sobre coisas que elas efetivamente viveram.
é bem numa hora dessas, bem no meio do "reclame aqui", que tu encontra o marcus vinícius reclamando da operadora do celular dele (aliás, ótimo texto, hein, marquito?). de volta à realidade.
àqueles que se interessarem pela excelente historieta da livraria e a da moça das trocas, eis o linque para seu divertido episódio.
àqueles que se interessarem pela malfada tentativa do marquito de trocar de operadora, eis, também, o linque.

81. penteados de casamento

não, eu não estou olhando sites de casamento.
na verdade, tenho me interessado por blogs sobre decoração para pobre, com instruções sobre como encontrar ótimas peças para a sua casinha em lojas baratilhas, de um e 99 e afins. obviamente, tenho feito isso porque nossa casa AINDA está parecendo um depósito e ontem o alexandre deixou por aqui um orçamento de móveis beeeeeem salgadinho. além disso, conto com uma variedade incrível de lojas do gênero aqui mesmo, no bairro - dentre as quais o destaque vai, claro, para o bazar londres (desde 1980!).
enfim, indo de blog em blog acabei caindo em um com um post sobre um site americano cujo assunto principal são penteados de casamento. lembrei-me imediatamente da flávia, que tem estado demasiado atucanada com seu wedding ultimamente, quem sabe esse site não é capaz de acalmá-la?
vou deixar a dica: http://www.weddinghair.com/
para dar aquela vontadezinha de ir visitá-lo, deixo uma palhinha, daquelas beeem sarcásticas, com o que você é capaz de encontrar:

desculpa gente, mas essa última aí é o noivo?!
eu sei que é uma merda as pessoas verem suas fotos assim, na internet, mas essas "dicas" passaram dos limites, né?

12.3.10

79. porto alegre na década de 1920

pesquisando no correio do povo da década de 1920 (belíssima aquisição recente do núcleo de pesquisa histórica da UFRGS), encontrei algumas curiosidades, principalmente relacionadas à publicidade da época.
a primeira que posto aqui é um anúncio da peça "o demônio familiar", de josé de alencar, que difunde a ideia de que o negro deve ser tutelado.

esta peça foi encenada pela primeira vez em 5 de novembro de 1857, no rio de janeiro, e recebeu os maiores elogios de toda a imprensa da época - à exceção de paula brito, no jornal a marmota. de fato, ela parece ter sido um marco na dramaturgia brasileira, já que rompeu com o teatro romântico, introduzindo a discussão sobre problemas sociais no teatro da terrinha.
bom, em 1857 uma peça que apresenta um escravo intrigueiro que por motivos mesquinhos arruína os destinos de vários personagens, está bem obviamente, digamos, dentro do contexto. a própria repercussão que a peça teve denota o quanto este (a instituição escravista) era um assunto a ser debatido. o nosso grande josé de alencar se posicionou politicamente acerca de um assunto candente do período.
mas esta peça foi novamente encenada em porto alegre no ano de 1922, no principal teatro da cidade. mais uma vez: ok ser uma peça em primeiro lugar de um autor canônico, considerado um dos grandes nacionais. entretanto, o assunto da peça, tão aparentemente restrito ao século XIX, sendo novamente posto em cena quase 70 anos depois... certamente nos possibilita reflexões acerca do nosso pós-abolição, hã?
não que o josé de alencar, por ter escrito lá no século XIX, não tenha contado com outras possibilidades de posicionamento. a perspectiva que ele deu à peça - e a toda uma questão social envolvendo a escravidão no brasil, então único país independente ainda escravista - foi a que ele escolheu dentre outras possíveis. vide machado de assis, por exemplo.
mas o que eu quero dizer é que normalmente as pessoas restringem os problemas gerados pela escravidão ao período anterior a 1888. a não ser pelo trabalho dos próprios historiadores, certos aspectos da história recente do país vão sendo aos poucos convenientemente esquecidos.
quando a gente se depara com algo tão real quanto um pedaço de um jornal de grande circulação em porto alegre (não no rio ou em são paulo, aqui mesmo), falando sobre uma peça a ser encenada no principal - e mais chique - teatro da cidade, sendo que essa peça defende a ideia da necessidade da tutela sobre a propulação negra - e isso tudo no ano de 1922 - talvez algumas coisas se tornem mais concretas.
sei que a digitalização não saiu das melhores, mas repare na cara do escravo, pedro. o próprio desenho que divulga a peça já indica que o principal do texto de josé de alencar parece ter sido mantido: o caráter do escravo. não por acaso, nesta mesma década de 1920 se firmavam teorias acerca do caráter do negro... aliás, não é difícil encontrar algumas delas no próprio correio do povo, devidamente assinadas por ilustres cidadãos gaúchos.
voltando ao século XIX, uma das pessoas que conferiu uma crítica muito positiva ao demônio familiar foi o próprio machado de assis. reproduzo o texto dele, de 1866, logo aqui abaixo, pensando no que o cara que foi o autor dos personagens subalternos mais interessantes da literatura brasileira oitocentista queria dizer com isso...


O TEATRO DE JOSÉ DE ALENCAR 
Uma grande parte das nossas obras dramáticas apareceu neste último decênio, devendo contar-se entre elas as estréias de autores de talento e de reputação, tais como os Srs. Conselheiro José de Alencar, Quintino Bocaiúva, Pinheiro Guimarães e outros. O Sr. Dr. Macedo apresentou ao público, no mesmo período, novos dramas e comédias, e estava obrigado a fazê-lo, como autor do Cego e do Cobé. Desgraçadamente, causas que os leitores não ignoram fizeram cessar o entusiasmo de uma época que deu muito, e prometia mais. Deveremos citar entre essas causas a sedução política? Não há um, dos quatro nomes citados, que não tenha cedido aos requebros da deusa, uns na imprensa, outros na tribuna. Ora, a política que já nos absorveu, entre outros, três brilhantes talentos poéticos, o Sr. conselheiro Otaviano, o Sr. senador Firmino, o Sr. conselheiro José Maria do Amaral, ameaça fazer novos raptos na família das musas. Parece-nos, todavia, que se podem conciliar os interesses da causa pública e da causa poética. Basta romper de uma vez com o preconceito de que não cabem na mesma fronte os louros da Fócion e os louros de Virgílio. Por que razão o poema inédito do Sr. conselheiro Amaral e as poesias soltas do Sr. conselheiro Otaviano não fariam boa figura ao lado dos seus despachos diplomáticos e dos seus escritos políticos? Até que ponto deve prevalecer um preconceito que condena espíritos educados em boa escola literária ao cultivo clandestino das musas? Felizmente, devemos reconhecê-lo, vai-se rompendo a pouco e pouco com os velhos hábitos.
O Sr. Dr. Macedo, que ocupa um lugar na política militante, publicou há tempos um romance; o Sr. Dr. Pedro Luís não hesita em compor uma ode, depois de proferir um discurso na câmara; o Sr. conselheiro Alencar, que, apesar de retirado da cena política, será mais tarde ou mais cedo chamado a ela, enriqueceu a lista dos seus títulos literários. Que nenhum deles esmoreça nestes propósitos; é um serviço que a posteridade lhes agradecerá.
Desculpe-nos se há ingenuidade nestas reflexões; nem nos levem a mal se assumimos por este modo a promotoria do Parnaso, fazendo um libelo contra a república. Contra, não; mesmo que pregássemos o divórcio das musas e da política, ainda assim não conspirávamos em desfavor da sociedade; de qualquer modo é servi-la, e a história nos mostra que, após um longo período de séculos, é principalmente a musa de Homero que nos faz amar a pátria de Aristides.
Dos recentes poetas dramáticos a que nos referimos no começo deste artigo, é o Sr. Alencar um dos mais fecundos e laboriosos. Estreou em 1857, com uma comédia em dois atos, Verso e reverso. A primeira representação foi anunciada sem nome de autor, e os aplausos com que foi recebida a obra animaram-lhe a vocação dramática; daí para cá escreveu o autor uma série de composições que lhe criaram uma reputação verdadeiramente sólida. Verso e reverso foi o prenúncio; não é decerto uma composição de longo fôlego; é uma simples miniatura, fina e elegante, uma coleção de episódios copiados da vida comum, ligados todos a uma verdadeira idéia de poeta. Essa idéia é simples: o efeito do amor no resultado das impressões do homem. Aos olhos de protagonista, no curto intervalo de três meses, o mesmo quadro aparece sob um ponto de vista diverso; começa por achar no Rio de Janeiro um inferno, acaba de ver nele um paraíso; a influência da mulher explica tudo. Dizer isto é contar a comédia; a ação, de extrema simplicidade, não tem complicados enredos; mas o interesse mantém-se de princípio a fim, através de alguns episódios interessantes e de um diálogo vivo e natural.
Verso e reverso não se recomenda só por essas qualidades, mas também pela fiel pintura de alguns hábitos e tipos da época; alguns deles tendem a desaparecer, outros desapareceram e arrastariam consigo a obra do poeta, se ela não contivesse os elementos que guardam a vida, mesmo através das mudanças do tempo. Aquela comédia não encerra todo o autor das Asas de um anjo, mas já se deixa ver ali a sua maneira, o seu estilo, o seu diálogo, tudo quanto representa a sua personalidade literária, extremamente original, extremamente própria. Há sobretudo um traço no talento dramático do Sr. Alencar, que já ali aparece de uma maneira viva e distinta; é a observação das coisas, que vai até as menores minuciosidades da vida, e a virtude do autor resulta dos esforços que faz por não fazer cair em excesso aquela qualidade preciosa. É sem dúvida necessário que uma obra dramática, para ser do seu tempo e do seu país, reflita uma certa parte dos hábitos externos, e das condições e usos peculiares da sociedade em que nasce; mas além disto, quer a lei dramática que o poeta aplique o valioso dom da observação a uma ordem de idéias mais elevadas e é isso justamente o que não esqueceu o autor do Demônio familiar. O quadro do Verso e reverso era restrito demais para empregar rigorosamente esta condição da arte; e todavia há de merecer a atenção dos espectadores, ainda quando desapareçam completamente da sociedade fluminense os elementos postos em jogo pelo autor; e isso graças a três coisas: ao pensamento capital da peça, ao desenho feliz de alguns caracteres, e às excelentes qualidade do diálogo.
Verso e reverso deveu o bom acolhimento que teve, não só aos seus merecimentos, senão também à novidade da forma. Até então a comédia brasileira não procurava os modelos mais estimados; as obras do finado Pena, cheias de talento e de boa veia cômica, prendiam-se intimamente às tradições da farsa portuguesa, o que não é desmerecê-la mas defini-la; se o autor do Noviço vivesse, o seu talento, que era dos mais auspiciosos, teria acompanhado o tempo, e consorciaria os progressos da arte moderna às lições da arte clássica.
Verso e reverso não era ainda a alta comédia, mas era a comédia elegante; era a sociedade polida que entrava no teatro, pela mão de um homem que reunia em si a fidalguia do talento e a fina cortesia do salão.
A alta comédia apareceu logo depois, com o Demônio familiar. Essa é uma comédia de maior alento; o autor abraça aí um quadro mais vasto. O demônio da comédia, o moleque Pedro, é o Fígaro brasileiro, menos as intenções filosóficas e os vestígios políticos do outro. A introdução de Pedro em cena oferecia graves obstáculos; era preciso escapar-lhes por meios hábeis e seguros.
Depois, como apresentar ao espírito do espectador o caráter do intrigante doméstico, mola real da ação, sem fazê-lo odioso e repugnante? Até que ponto fazer rir com indulgência e bom humor das intrigas do demônio familiar? Esta era a primeira dificuldade do caráter e do assunto. Pelo resultado já sabem os leitores que o autor venceu a dificuldade, dando ao moleque Pedro as atenuantes do seu procedimento, até levantá-lo mesmo ante a consciência do público.
Primeiramente, Pedro é o mimo da família, o enfant gâté, como diria o viajante Azevedo; e nisso pode-se ver desde logo um traço característico da vida brasileira. Colocado em uma condição intermediária, que não é nem a do filho nem a do escravo, Pedro usa e abusa de todas as liberdades que lhe dá a sua posição especial; depois, como abusa ela dessas liberdades? por que serve de portador às cartinhas amorosas de Alfredo? por que motivo compromete os amores de Eduardo por Henriqueta, e tenta abrir as relações de seu senhor com uma viúva rica? Uma simples aspiração de pajem e cocheiro; e aquilo que noutro repugnaria à consciência dos espectadores, acha-se perfeitamente explicado no caráter de Pedro. Com efeito, não se trata ali de dar um pequeno móvel a uma série de ações reprovadas; os motivos do procedimento de Pedro são realmente poderosos, se atendermos a que a posição sonhada pelo moleque, está de perfeito acordo com o círculo limitado das suas aspirações, e da sua condição de escravo; acrescente-lhe a isto a ignorância, a ausência de nenhum sentimento do dever, e tem-se a razão da indulgência com que recebemos as intrigas do Fígaro fluminense.
Parece-nos ter compreendido bem a significação do personagem principal do Demônio familiar; esta foi, sem dúvida, a série de reflexões feitas pelo autor para transportar ao teatro aquele tipo eminentemente nosso. Ora, desde que entra em cena até o fim da peça, o caráter de Pedro não se desmente nunca: é a mesma vivacidade, a mesma ardileza, a mesma ignorância do alcance dos seus atos; e se de certo ponto em diante, cedendo as admoestações do senhor; emprega as mesmas armas da primeira intriga em uma nova intriga que desfaça aquela, esse novo traço é o complemento do tipo. Nem é só isso: delatando os cálculos de Vasconcelos a respeito do pretendente de Henriqueta, Pedro usa do seu espírito enredador, sem grande consciência nem do bem nem do mal que pratica; mas a circunstância de desfazer um casamento que servia aos interesses de dois especuladores, dá aos olhos do espectador uma lição verdadeiramente de comédia.
O Demônio familiar apresenta um quadro de família, com o verdadeiro cunho da família brasileira; reina ali um ar de convivência e de paz doméstica, que encanta desde logo; só as intrigas de Pedro transtornam aquela superfície: corre a ação ligeira, interessante, comovente mesmo, através de quatro atos, bem deduzidos e bem terminados. No desfecho da peça, Eduardo dá a liberdade ao escravo, fazendo-lhe ver a grave responsabilidade que desse dia em diante deve pesar sobre ele, a quem só a sociedade pedirá contas. O traço é novo, a lição profunda. Não supomos que o Sr. Alencar dê às suas comédias um caráter de demonstração; outro é o destino da arte; mas a verdade é que as conclusões do Demônio familiar, como as conclusões de Mãe, têm caráter que consolam a consciência; ambas as peças, sem saírem das condições da arte, mas pela própria pintura dos sentimentos e dos fatos, são um protesto contra a instituição do cativeiro.
Em Mãe é a escrava que se sacrifica à sociedade, por amor do filho; no Demônio familiar, é a sociedade que se vê obrigada a restituir a liberdade ao escravo delinqüente.
A peça acaba, sem abalos nem grandes peripécias, com a volta da paz da família e da felicidade geral. All is well that ends well, como na comédia de Shakespeare.
Não entramos nas minúcias da peça; apenas atendemos para o que ela apresenta de mais geral e mais belo; e contudo não falta ainda que apreciar no Demônio familiar, como por exemplo, os tipos de Azevedo e de Vasconcelos, as duas amigas Henriqueta e Carlotinha, tão brasileiras no espírito e na linguagem, e o caráter de Eduardo, nobre, generoso, amante. Eduardo sonha a família, a mulher, os hábitos domésticos, pelo padrão da família dele e dos costumes puros de sua casa.
Mais de uma vez enuncia ele os seus desejos e aspirações, e é para agradecer a insistência com que o autor faz voltar o espírito do personagem para esse assunto.
“A sociedade, diz Eduardo, isto é, a vida exterior, ameaça destruir a família, isto é, a vida interior.” A esta frase acrescentaremos este período: “A mulher moderna, diz Madama d’Agout, vive em um centro, que não é nem o ar grave da matrona romana, nem a morada aberta e festiva da cortesã grega, mas uma coisa intermediária que se chama sociedade, isto é, a reunião sem objeto de espíritos ociosos, sujeitos às prescrições de uma moral que pretende em vão conciliar as diversões de galanteria com os deveres da família.” Há, sem dúvida, mais coisas a dizer sobre a excelente comédia do Sr. José de Alencar; não nos falta disposição, mas espaço; nesta tarefa de apreciação literária há momentos de verdadeiro prazer; é quando se trata de um brilhante e de uma obra de gosto. Quando podemos achar uma dessas ocasiões é só com extremo pesar que não a aproveitamos toda.
Guardamos para outro artigo a apreciação das demais obras do distinto doutor do Demônio familiar.
6 de março de 1866.

8.3.10

78.

monsieur reveillon entrou retumbante na sala de jantar.
paralisando seus talheres no ar, madame juliette d'abajour olhou faiscante para george bidé. seu segredo seria finalmente revelado diante de todos, inlcusive do marido, monsieur cornichon?
todos voltaram-se para reveillon, a espera. os olhares fixos, as bocas entreabertas, os cabelos bem penteados já não importavam mais. reveillon permanecia parado, sério, quase desaforado.
um som agudo de cristais partindo foi seguido por um grito de madame d'abajour. a luxuosa e cintilante toalha sobre a mesa cuidadosamente posta agora continha uma larga mancha de vinho tinto, a escorrer por sobre a fina calça branca de monsieur cornichon.
madame d'abajour tremia, por entre lágrimas. era evidente seu estado de nervos.
george bidé levantou-se ansioso, a recolher os cacos da taça quebrada, esfregando avidamente um delicado guarnapo de linho inglês por sobre a mancha de vinho.
monsieur cornichon levantou-se constragido pela mancha na calça, passando sobre as partes sujas os dedos desajeitados. olhando inseguro para monsieur reveillon, finalmente disse:
- e então, mon ami? que notícia nos trazes?
monsieur reveillon aproximou-se lentamente, o chapéu nas mãos. george bidé massageava ternamente os ombros tensos de madame d'abajour.

77. adendo

doesn't have a point of view,
knows not where he's going to,
isn't he a bit like you and me?

23.2.10

75. como combater uma invasão de formigas

o apartamentão sofreu com uma invasão destes pequeninos seres, que sempre parecem tão simpaticos.
o primeiro foco da invasão foi, obviamente, a cozinha, muito embora algumas isoladas tivessem sido vistas em cômodos diversos anteriormente. mas na cozinha a coisa foi diferente. elas tomaram o balcão azul, depois infestaram a parte inferior do balcão branco, tomaram o inox da pia. chegaram a formar pequenos núcleos de ação na beirada da janela, onde resplandescia o fofinho pote de mel em formato de ursinho, adquirido no super barão.
tivemos receio de que a invasão se alastrasse. foi quando percebemos o aumento populacional das habitantes do banheiro e algumas trilhas irrecorrentes no quartinho da frente. isso foi na semana anterior à nossa última ida para campinas.
na véspera da partida, resolvemos tomar uma providência, ou elas sitiariam o apartamentão durante a nossa ausência. adquirimos iscas para envenenar formigas domésticas no zaffari e, após uma limpeza minuciosa da cozinha, principal área afetada, as posicionamos em locais estratégicos.
ao retornarmos, a situação estava aparentemente controlada, mas bastou alguns poucos dias de comilanças e sujeira para que se retornasse ao ponto inicial.
buscamos, então, ajuda do google. era a última solução possível. e é por isso que resolvi redigir este post sobre os modos mais eficazes de combater as pequenas e inofensivas formigas. nada (ou quase nada) do que diz o google funciona realmente.

1. jamais compre as famosas iscas para formigas. elas sabem muito bem do que se trata e desviam sua trilha dos locais onde você colocá-las. lembre-se: as formigas pensam como você. um quadradinho preto te parece atrativo? nem a elas. se quiser colocar iscas para atraí-las - o que pode ser um bom começo -, coloque algo que você mesmo comeria, lutaria para comer, perderia a racionalidade só para ter aquele delicioso sabor sobre suas papilas gustativas: um pudim, um copo de nescau ou de coca-cola, cobertura de chocolate, um pote de chandelle.
2. é conversa fiada essa história de colocar detergente de louça sobre as fendas do chão ou da parede por onde as trilhas delas passam. o método mais eficaz de destrui-las, quando estão nas suas longas e populosas trilhas, é sobrepujá-las com sua superioridade física. uma boa chinelada sobre o acúmulo de formigas da trilha mata de forma rápida e certeira.
3. embora não seja ecologicamente correto, a maneira mais eficaz de provocar a desunião e desorganização dos clãs formiguísticos é jorrar mortein diante das portas e janelas da casa a fim de impedir que elas entrem. não foram testados outros venenos para insetos, mas este teve sua eficácia comprovada.

diante das dicas anteriores, cabe agora propor um elaborado e estratégico plano de ação, afinal de contas você pertence a uma espécie racional, ao contrário daqueles seres inferiores, pequenos e invertebrados que são as formigas.

1. em primeiro lugar, não tenha pena delas. não tenha dó de matá-las. elas, ao contrário de você, não têm ética e não estão minimamente preocupadas com o problema da superpopulação da espécie delas, nem se elas estão ou não interferindo no seu ecossistema. se você permitir, elas tomam a sua casa de forma ordenada e sistemática, se proliferando em meio às suas guloseimas. em breve estarão dividindo o mesmo prato de comida que você suou muito dentro de um sistema capitalista para adquirir e preparar.
2. faça o seguinte: plante uma isca em local estratégico. não precisa ser um local que já esteja tomado por elas, pode ser um local mais afastado, se você preferir. coloque, por exemplo, uma colherinha babada com iogurte de chocolate ou com restos de nescau, como se você a tivesse esquecido naquele local. creia, elas vão cair nessa com tudo.
3. calma e serenamente dirija-se a outra peça da sua casa. leia um livro, aprecie a vista da janela, dê um passeio, assista a um bom filme. desfrute da boa vida que você leva. isso é pra dar tempo delas morderem a isca.
4. após o seu tempo de relaxamento, retorne ao local da isca. repare que elas estupidamente se aglomeraram sobre a colherinha babada por você, recolhendo avidamente os restos de açúcar que você desprezou. seja racional e calculista. olhe mais detalhadamente. você verá a looooooooonga trilha de formigas se dirigindo à colherinha "esquecida". elas não só se amontoaram sobre a colherinha, como chamaram as amigas para fazerem o mesmo. siga a trilha e veja onde ela principia: você terá a origem da colônia. pode ser que a trilha venha de algum local longínquo da rua. melhor pra você.
5. a primeira coisa que você tem de fazer, então, é neutralizar a área interna de sua confortável residência. coloque mortein na divisória do local por onde elas estão entrando em seu lar, para impedir que elas prossigam com seu intento nefasto (pode ser uma porta, uma janela, o local que você idenficou após minuciosa inspeção da trilha). veja que, após a aplicação do poderoso veneno, elas se desorientam, não sabem mais como reagir. é aí que você, mais esperto do que elas, deve tomar a frente.
6. pisoteie todas as formigas que puder. soque-as, se estiverem sobre a parede ou outra superfície alta. mate quantas você puder e todas as que localizar.
7. pronto! sua casa está protegida! você impediu a entrada delas em casa pelo isolamento da área de infecção (porta, janela etc) localizada com o reconhecimento da trilha; e ainda matou todas as que já estavam dentro de casa!
8. repita a operação quantas vezes forem necessárias, conforme elas forem tentando entrar em outros cômodos de sua casa.

8.2.10

74. das resenhas de hotéis enquanto gênero narrativo de interesse

última semana passei em campinas, com o desenho.
deveríamos tê-la passado no famigerado kitnet do carlão, alugado por mim, não fosse o triste fato deste ter ficado completamente mofado nos dois meses em que estive ausente.
afora mais uma eloquente prova da hospitalidade paulista, oferecida tanto por rafaela quanto por giovani, outro importante ganho da fatídica viagem foi a descoberta de um interessante gênero narrativo ainda por mim desconhecido: trata-se das resenhas de hotéis.
à procura de uma pousada ou hotel barato em campinas onde pudéssemos ficar, utilizei, obviamente, os serviços prestados pelo google neste ramo, contendo o mapa com a localização do hotel e, eventualmente, resenhas escritas por outros usuários. é brilhante. após algum tempo, já não mais me dedicava a buscar um hotel onde pudéssemos ficar, mas sim a apreciar as impressionantes descrições de situações as mais escabrosas vividas em hotéis, pousadas, motéis e pensões campineiras.
em geral rico em adjetivos, tal gênero também se caracteriza pelo detalhamento do estado psicológico da pessoa que ousou se hospedar em certos locais. o agravamento do estado de tensão se dá, normalmente, após o contato com as miseráveis acomodações, com o aspecto insalubre dos móveis, roupas de cama e/ou instalações sanitárias, ou com o despreparo dos atendentes.
o narrador é, comumente, alguém que sofre ou sofreu graves intempéries nas mãos de uma rede hoteleira precária e que se solidariza com outras possíveis vítimas de tal estado de coisas, optando por relatar literariamente sua experiência, tentando dar ao leitor, pela via de uma escrita densa e contundente, ao mesmo tempo descritiva e psicológica, embora curta, um retrato preciso das situações que viveu.
deixo para apreciação pública, os linques de alguns dos meus favoritos:
motel em campinas 1
motel em campinas 2
hoteleco simpático em porto alegre 1
hotel do centro - porto alegre 2