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3.3.11

127. experiência antropológica

esta semana estou dando aulas em cachoeirinha.
embora tenha me apegado a algumas crianças da quinta série, mas especialmente às da sexta, não estou gostando.
uma amiga me ensinou na véspera do meu primeiro dia: utilize os ensinamentos da supernanny e do encantador de cães. eu acho que a supernanny está correta nas suas aplicações behavioristas totalmente out na faced. mas acho isso cansativo demais. a criança não quer ficar sentada, você pega a criança pelo braço e a coloca de novo no banquinho. ela levanta. você pega ela pelo braço e a coloca de novo no banquinho. ela levanta. você pega ela pelo braço e a coloca de novo no banquinho. e assim por diante, indefinidamente.
sempre que eu assistia a supernanny eu pensava que em alguns casos o melhor seria os pais desistirem de seus fihos pentelhos e começarem tudo de novo, do zero. recuperar seria muito trabalhoso.
bom, dar aulas pra quinta série é ter 30 destes durante duas horas. e ter de levar todos eles até suas classes e sentá-los, tantas quantas forem as vezes que eles levantarem. e eles fazem isso juntos. é como um daqueles jogos de atari, tu recolhe um, já tem outros 30 saindo do lugar de novo.
eu pretendia tomar isso como uma experiência antropológica, mas, na verdade, eu estou odiando. espero nunca mais ter de aulas pra crianças de novo.

1.7.10

110. a retomada lenta da tese

retomarei o ari martins esta semana. mais cedo ou mais tarde vou ter de sentar e refletir sobre essa fonte, que eu considero ao mesmo tempo fascinante, cheia de possibilidades, e tão complicada de trabalhar.
nada melhor para pensar sobre ela do que utilizá-la, penso eu. recortei meu período. por ora, vou trabalhar com a década de 1900, apenas. e já é muito! além do mais, foi a década em que homero prates, álvaro moreyra e felipe d'oliveira ainda viviam em porto alegre, e trabalhar com o livro do ari martins vai ser importante pra conhecer o campo literário porto alegrense (gaúcho, quiçá) durante este período.
a grande questão é que todo mundo usa o livro dele - ótimo, diga-se de passagem - com a única finalidade de buscar uma outra referência sobre um ou outro escritor. era exatamente o uso que até agora eu vinha fazendo dele.
entretanto, penso que essa é uma fonte muito mais rica. é um banco de dados, e como todo banco de dados pode ser utilizado de variadas formas. não consta nele unicamente informações sobre escritores, mas também sobre editoras, números de publicações, cidades onde mais se publicava etc. o problema é que este banco de dados, embora contenha estas informações, não foi pensado para fornecê-las. não há, ainda, nenhuma nota sobre como o autor produziu seu banco de dados - buscou referências onde? jornais, revistas? quais? outras obras? de quais autores? bibliotecas particulares? de quem? há outros documentos de referência? se sim, quais?
tudo isso seria crucial para saber que tipo de fonte ele JÁ consultou e que outras ficaram pra trás - até por não servirem ao objetivo central da obra.
além disso, como banco de dados, se presta pra algumas coisas, mas não pra outras, e é muito importante saber direitinho pra que ele serve e pra que ele não serve. sim, ele possui todas aquelas informações. mas ele não conta, por exemplo, com publicações de escritores não gaúchos, mas que publicaram por editoras daqui. hoje em dia, nem sei mais que tipo de fonte eu poderia utilizar para descobrir esses dados, mas de todo modo seria crucial para retirar o caráter restritivo que a obra acabou tomando - obviamente isso não chega a ser uma crítica, já que construir um bando de dados desta monta sem computador é um grande, grandessíssimo feito.
entretanto, pensando nas perguntas que podem ser feitas hoje, no atual estado de ânimos da história dos livros, da leitura, intelectual, das ideias, cultural, social da cultura ou seja lá que tipo de história se pense em fazer que vise recuperar informações sobre o campo intelectual e editorial no rio grande do sul do passado, uma pergunta bastante relevante seria a de que porcentagem de autores nascidos fora do rio grande do sul, ou moradores de fora do rio grande do sul, chegaram a publicar por editoras daqui. isso não é possível descobrir com o livro do ari martins.
outro aspecto controverso com o qual é preciso lidar é o fato de que nem todas as informações constam em todos os registros (por exemplo, editora, cidade etc) e não há nenhuma explicação para tal ausência. seria falta de fontes? ou o livro não foi mesmo publicado por nenhuma editora ou tipografia (nenhuma tipografia "assinou" a edição do livro), como podia acontecer no século XIX?
se, por um lado, não há informações - não completas e sistemáticas, ao menos - de autores não gaúchos que publicaram no rio grande do sul, por outro lado há referência a publicações de autores gaúchos em outros estados. o que não foi informado é o local onde o ari martins localizou tais informações, ou que critérios utilizou para incluir estes escritores e não outros - já que, evidentemente, ele não buscou todos.
bueno, por enquanto é só o que sou capaz de pensar... quando estiver com todos os dados quem sabe faço algum comentário sobre isso aqui ;)

25.6.10

104. um dia no centro de porto alegre

desde que me mudei para o bom fim tenho recorrido bem menos ao centro de porto alegre, já que aqui nas redondezas se encontra quase tudo que se precisa - e ainda há muuuuitas lojas de um e 99 espalhadas por aqui!!
ontem, entretanto, precisei ir comprar uns tecidos para estrear minha linda máquina de costura, recém adquirida. obviamente, peguei o C3, apesar de demorar uma boa meia hora para chegar ao centro - com outros ônibus da osvaldo eu chegaria em 5 minutos. mas é uma demora que vale muito a pena pelo caminho percorrido. sempre que tenho oportunidade, pego o C3 e aprecio seu percurso exuberante. ei-lo:
eu moro bem ali na fernandes vieira. pego o C3 na frente de casa e começo aproveitando as belezas da osvaldo aranha, por onde o ônibus cruza a fim de se dirigir à josé bonifácio.


em geral, os ônibus daqui que vão direto para o centro, seguem pela osvaldo, atravessam o viaduto, e já estão lá. mas o C3 não. o C3 se preocupa com a beleza do trajeto, mesmo que mais longo e sinuoso. em vez de entrar na osvaldera, ele vai pela josé bonifácio, diante do parque da redenção. aprecio, neste momento, olhar rapidamente para os dois lados, tanto o lado do parque quanto o lado das casas e prédios, pois ambos são belos.


o C3 continua fascinante pela venâncio aires até chegar na joão alfredo, que é um dos pontos altos do percurso.

detonado, mas é um casario muito bonito. antigamente, essa região ficava na margem do guaíba. saindo da joão alfredo, atinge a avenida loureiro da silva, de onde se pode ver a ponte de pedra.

e, finalmente, entra no centro. mas entra pela parte alta do centro, começando pela fernando machado. pra chegar no centrão mesmo, ainda vai demorar um pouco. mas a fernando machado vale a pena. vale muito a pena. primeiro porque hoje em dia ela é bonita. segundo, porque no passado foi ali que aconteceram os crimes do linguiceiro. pra quem não sabe, a fernando machado é a rua do arvoredo. e foi na rua do arvoredo, no século xix, que um açougueiro fazia linguiça com carne de gente. sempre achei essa história fascinante.

aí está a fernando machado hoje, em dia, com seus casarios e a feira do caminho dos antiquários - porque, obviamente, nessa rua há muitos estabelecimentos que vendem antiguidades. mas em 1864 foi aí mesmo nesta simpática ruazinha que um açougueiro esquartejava pessoas e usava suas carnes para fazer linguiça, que depois, of course, vendia no açougue. reza a lenda - viu, andrea, aqui também temos nossas lendas, sem títulos de barão, mas com muito sangue! - reza a lenda que a mulher do açougueiro, que era do leste europeu, era lindíssima e atraía as vítimas para as garras do marido. e também reza a lenda que as carnes daquele açougue eram apreciadíssimas pela população. bom, da fernando machado, o C3 passa pela frente da usina do gasômetro e chega na duque de caxias, até a praça da matriz, passando pelo teatro são pedro. adoro essa primeira casa logo aqui abaixo. está sempre fechada, velha e caindo aos pedaços, e com um gol 1.0 na frente. quem será que a habita?
aí passa pela biblioteca pública, pelo arquivo público, pelo hipólito - todos lugares onde costumo ir pesquisar. e chega na praça da alfândega, onde normalmente eu desço.

realmente, vale a pena demorar meia hora, em vez de 5 minutos, pra pelo menos apreciar o caminho. nada a ver isso de transporte meramente instrumental.
peço desculpas aos fotógrafos que não mereceram seus créditos neste post. não consegui acompanhar meu próprio ágil pensamento, a ponto de recolher os linques de onde as fotos foram tiradas.

21.6.10

97. dunga: o contrapoder da televisão brasileira

o dunga está definitivamente ahasando nesta copa do mundo. além de manter um comportamento ambíguo (treinador de futebol gaúcho e - tido como - grosso e usando terno herchcovitch, por exemplo...), ele tem xingado os jornalistas esportivos, o que muito me compraz.
podem alegar que foi falta de educação, indelicadeza (!) e outras coisas do gênero, mas o fato é que jornalistas (não apenas esportivos) têm o incrível poder de destruir reputações com poucas palavras, por mais educadas e delicadas que elas possam parecer. e, como não há a possibilidade de criação de um órgão que regule esta atividade, já que os próprios jornalistas se aproveitam do grande espaço de que dispõem na vida das pessoas para alegar que tal órgão seria um instrumento de censura, eis que esta profissão aparece com grande penetração social e podendo agir mais ou menos como bem entender sem maiores consequências. um bom exemplo disso é o recente caso do antropólogo eduardo viveiros de castro e a revista veja, que teve grande repercussão nos meios acadêmicos, mas que muito provavelmente só chegou ao público mais amplo na forma da péssima reportagem da revista sobre a antropologia e as terras indígenas. ou seja, por mais que viveiros de castro venha a processar a veja pelo que foi (mal) dito a respeito da produção intelectual que ele passou a vida construindo, nada vai mudar o fato de que a reportagem saiu e a denegriu. no caso de outras profissões, atitudes similares seriam obviamente punidas, com, por exemplo, a perda do registro profissional do indivíduo que fizesse mal exercício do seu diploma - é o que ocorre com médicos que, por displiscência, acabam tirando a vida de seus pacientes.
os jornalistas não admitem que um conselho que fiscalize como sua atividade profissional vem sendo exercida seja criado, ainda que este conselho seja composto por seus próprios companheiros de profissão, e não por funcionários do estado, alegando que isso seria um retrocesso à censura, tal qual ocorria na ditadura militar. a ditadura militar brasileira (que, diga-se de passagem, não inventou a longa história de censura no brasil) é utilizada estrategicamente (e apenas estrategicamente) para simbolizar um demônio que devemos combater. mas, ao chamar de censura o que seria a fiscalização de uma profissão, acabamos nas mãos de um outro tipo de ditadura, já que não é possível, não há instrumentos eficazes para combater o mal jornalismo que anda por aí. a liberdade de imprensa foi uma vitória, sim, conquistada por muita gente que nunca entrou na redação de um jornal e que hoje é classificada, inclusive pela imprensa, como "comunistas baderneiros". e a liberdade de imprensa não existe, até onde eu sei, para que os jornalistas tenham o direito de agir irresponsavelmente sobre as vidas de outras pessoas.
como disse o bourdieu, o jornalismo é um assunto muito sério. e parece muito sério também todo o apoio popular que eu tenho visto o dunga recebendo pelas suas atitudes "mal educadas" nas coletivas após os jogos do brasil. parece também bastante sério o "cala a boca, galvão" que ganhou o mundo. não parece que só o dunga tenha percebido o que um jornalista pode fazer sobre uma reputação - e o que muitos deles têm efetivamente feito. é uma pena que a globo utilize a concessão que ganhou do estado brasileiro para tentar sair de vítima nesta história. se o dunga tem apoio, é porque as pessoas realmente não aguentam mais o jornalismo brasileiro. seria mais produtivo se fizessem (não apenas a globo, mas todo o campo jornalístico brasileiro, que conta com muitos profissionais sérios e interessados) uma crítica de sua responsabilidade e dos usos de sua profissão. mas uma crítica séria, não uma falsa adesão, como no caso do "cala a boca, galvão".
como isso está bem longe de acontecer, deixo o recadinho do nosso querido dunga, que ganhou merecidamente a minha torcida nesta copa.



e também deixo uma leitura de cabeceira para orientar o pensamento sobre tudo isso. a tv precisa de um contrapoder.

Pierre Bourdieu Sobre a televisão (seguido de A influência do jornalismo e Os jogos olímpicos)

4.4.10

85. as aventuras de tieta do agreste, pastora de cabras ou a volta da filha pródiga

tieta é de fato um livro envolvente. a temporada em são paulo me fez perceber a falha de nunca ter lido jorge amado, e agora talvez me anime a ir adiante no autor.
tenho apreciado fazer comparações entre o livro e a novela, e penso que aguinaldo fez um bom trabalho. alguns personagens ganham maior relevo, outros são sumariamente descartados da novela, mas acredito que tudo isso ocorreu para que o principal fosse mantido.


o legal de ler o livro ao mesmo tempo em que assisto aos capítulos da novela é perceber as sutilezas narrativas que os distanciam. narrar através de imagens é muito diferente de narrar através do texto literário. por exemplo: quando cardo, o seminarista, come a tia, seu sofrimento pelo medo do fogo no inferno é narrado, no livro, em duas ou três páginas, e parece suficiente ao leitor que assim seja. já na novela é necessário muito mais tempo para que o telespectador consiga ter a dimensão do peso que teve a saída do seminário, o abandono de deus e o apelo da tia.
o livro é um livro político, disfarçado na história de uma puta que volta rica pra cidadezinha onde morava. a novela não é uma novela política, ao menos não na mesma dimensão do livro. mas tem seus momentos.
no capítulo 48 há a explicitação de uma interessante metáfora que permite um pouco entender a adaptação desta obra do jorge amado para a televisão em 1989. a novela foi ao ar no período entre 14 de agosto de 1989 e 31 de março de 1990. o capítulo 48 foi exibido precisamente no dia 09 de outubro de 1989, uma segunda-feira. nesta fase da novela, zé esteves, o pai de tieta, que a escurraçou de santana do agreste cerca de 20 anos antes, está demonstrando que já tem poucos dias de vida. tem variado, pensa que tieta ainda é jovem e que ele ainda é um pastor de cabras a tocar o rebanho pela cidade. seu maior sonho é ter de volta as cabras que vendeu a jarde após a expulsão de tieta e, para realizar seu intento, pretende recorrer justamente à mesma tieta, já de volta à antiga cidade, ávida por vingança.
caduco, zé esteves vê coisas, ouve coisas, e algumas delas têm relação com o passado, quando, sem dó nem piedade, deixou tieta à própria sorte, pra ser mulher da vida pelas estradas do nordeste.
é justamente numa cena do capítulo 48 (por volta dos 40 min da cena) que a metáfora política da expulsão e do retorno de tieta é exposta.

zé esteves olha um calendário, o ano é 1989. de repente, em sua loucura senil, ele se vê novamente no dia em que mandou tieta embora a porretadas. o calendário que aparece a sua frente já não é mais de 1989, mas sim de 1968. o dia e o mês também são revelados: 13 de dezembro.
13 de dezembro de 1968, caralho! o dia da edição do AI-5!!!
suspensão das liberdades individuais, intervenção no judiciário, fechamento do congresso e cassação de mandatos. foi o recrudescimento da repressão durante a ditadura militar brasileira, iniciada com o golpe de primeiro de abril de 1964.
bom, aguinaldo silva faz referência direta a esta medida dos militares com a estratégia de utilizar o calendário de zé esteves para marcar a data. o velho, voltando à novela, retoma momentaneamente a razão e volta a enxergar o calendário original, o verdadeiro, o de 1989. o dia é 13 de novembro - ou seja, dois dias antes da primeira eleição direta para presidente no brasil após a redemocratização e após a nova constituição.
intrigante, não?
a expulsão de tieta é associada à edição do AI-5. na cena da expulsão, tieta está obviamente transando com lucas, apenas um de seus inúmeros casos no agreste, quando zé esteves aparece e a enche de porrada. em praça pública, pra todo mundo ver. perpétua, a irmã invejosa, foi quem dedurou, e nesta cena aparece muito satisfeita em ver tieta apanhar.
com exceção de uns poucos cachorros mortos, como tonha, dona milú e a jovem carmosina, ninguém sequer tenta evitar que tieta seja mandada embora pelo pai. dona milú até tenta pedir ajuda aos outros. o padre se abstém. o coronel artur da tapitanga parece até ter gostado do destino da "cabrita" que ele nunca teve. ninguém faz nada.
e tieta promete: vai, mas volta. mas não pra baixar a cabeça diante de toda a gente que não a quis. volta pra se vingar.



e, quando tieta retorna, em 1989, é ano eleitoral. como será que ela pretende empreender sua vingança?
mais intrigante ainda é o fato de aguinaldo silva ter se remontado, em sua metáfora, não ao dia exato do golpe militar (01/04/1964) - o que, aliás, fecharia com os tempos do romance de jorge amado, já que tieta retorna a santana do agreste 26 anos depois da expulsão pelo pai - , mas ao dia da edição do AI-5 - o que dá 21 anos depois. teria ele perdoado o golpe, em certo sentido?
bom, se relevou o golpe, mas não aceitou o AI-5 e todos os crimes cometidos após ele, eu não sei. entretanto, a campanha do lula (relembrando: os dois principais candidatos eram lula e collor), que ocorria televisivamente justamente na mesma época em que a novela ia ao ar, nos dá mais pano pra manga pra pensar. vejam só quem aparece:



aminthas, leonora, osnar, ascânio, a própria tieta, até o urubu azedo da perpétua e o capitalista modesto pires. todo mundo aparecendo na TV pra fazer campanha pro lulão. pra evitar totalmente os anacronismos e ELEVAR O NÍVEL da análise, restaria saber se esta propaganda era já para o primeiro turno, ou apenas para o segundo. mas isso eu não tenho saco de pesquisar agora.

UPDATE: foi campanha pro segundo turno. perpétua aparece com camiseta do partido verde, osnar exibe um lenço maragato brizolista no pescoço e etc.