retomarei o ari martins esta semana. mais cedo ou mais tarde vou ter de sentar e refletir sobre essa fonte, que eu considero ao mesmo tempo fascinante, cheia de possibilidades, e tão complicada de trabalhar.
nada melhor para pensar sobre ela do que utilizá-la, penso eu. recortei meu período. por ora, vou trabalhar com a década de 1900, apenas. e já é muito! além do mais, foi a década em que homero prates, álvaro moreyra e felipe d'oliveira ainda viviam em porto alegre, e trabalhar com o livro do ari martins vai ser importante pra conhecer o campo literário porto alegrense (gaúcho, quiçá) durante este período.
a grande questão é que todo mundo usa o livro dele - ótimo, diga-se de passagem - com a única finalidade de buscar uma outra referência sobre um ou outro escritor. era exatamente o uso que até agora eu vinha fazendo dele.
entretanto, penso que essa é uma fonte muito mais rica. é um banco de dados, e como todo banco de dados pode ser utilizado de variadas formas. não consta nele unicamente informações sobre escritores, mas também sobre editoras, números de publicações, cidades onde mais se publicava etc. o problema é que este banco de dados, embora contenha estas informações, não foi pensado para fornecê-las. não há, ainda, nenhuma nota sobre como o autor produziu seu banco de dados - buscou referências onde? jornais, revistas? quais? outras obras? de quais autores? bibliotecas particulares? de quem? há outros documentos de referência? se sim, quais?
tudo isso seria crucial para saber que tipo de fonte ele JÁ consultou e que outras ficaram pra trás - até por não servirem ao objetivo central da obra.
além disso, como banco de dados, se presta pra algumas coisas, mas não pra outras, e é muito importante saber direitinho pra que ele serve e pra que ele não serve. sim, ele possui todas aquelas informações. mas ele não conta, por exemplo, com publicações de escritores não gaúchos, mas que publicaram por editoras daqui. hoje em dia, nem sei mais que tipo de fonte eu poderia utilizar para descobrir esses dados, mas de todo modo seria crucial para retirar o caráter restritivo que a obra acabou tomando - obviamente isso não chega a ser uma crítica, já que construir um bando de dados desta monta sem computador é um grande, grandessíssimo feito.
entretanto, pensando nas perguntas que podem ser feitas hoje, no atual estado de ânimos da história dos livros, da leitura, intelectual, das ideias, cultural, social da cultura ou seja lá que tipo de história se pense em fazer que vise recuperar informações sobre o campo intelectual e editorial no rio grande do sul do passado, uma pergunta bastante relevante seria a de que porcentagem de autores nascidos fora do rio grande do sul, ou moradores de fora do rio grande do sul, chegaram a publicar por editoras daqui. isso não é possível descobrir com o livro do ari martins.
outro aspecto controverso com o qual é preciso lidar é o fato de que nem todas as informações constam em todos os registros (por exemplo, editora, cidade etc) e não há nenhuma explicação para tal ausência. seria falta de fontes? ou o livro não foi mesmo publicado por nenhuma editora ou tipografia (nenhuma tipografia "assinou" a edição do livro), como podia acontecer no século XIX?
se, por um lado, não há informações - não completas e sistemáticas, ao menos - de autores não gaúchos que publicaram no rio grande do sul, por outro lado há referência a publicações de autores gaúchos em outros estados. o que não foi informado é o local onde o ari martins localizou tais informações, ou que critérios utilizou para incluir estes escritores e não outros - já que, evidentemente, ele não buscou todos.
bueno, por enquanto é só o que sou capaz de pensar... quando estiver com todos os dados quem sabe faço algum comentário sobre isso aqui ;)
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1.7.10
21.6.10
97. dunga: o contrapoder da televisão brasileira
o dunga está definitivamente ahasando nesta copa do mundo. além de manter um comportamento ambíguo (treinador de futebol gaúcho e - tido como - grosso e usando terno herchcovitch, por exemplo...), ele tem xingado os jornalistas esportivos, o que muito me compraz.
podem alegar que foi falta de educação, indelicadeza (!) e outras coisas do gênero, mas o fato é que jornalistas (não apenas esportivos) têm o incrível poder de destruir reputações com poucas palavras, por mais educadas e delicadas que elas possam parecer. e, como não há a possibilidade de criação de um órgão que regule esta atividade, já que os próprios jornalistas se aproveitam do grande espaço de que dispõem na vida das pessoas para alegar que tal órgão seria um instrumento de censura, eis que esta profissão aparece com grande penetração social e podendo agir mais ou menos como bem entender sem maiores consequências. um bom exemplo disso é o recente caso do antropólogo eduardo viveiros de castro e a revista veja, que teve grande repercussão nos meios acadêmicos, mas que muito provavelmente só chegou ao público mais amplo na forma da péssima reportagem da revista sobre a antropologia e as terras indígenas. ou seja, por mais que viveiros de castro venha a processar a veja pelo que foi (mal) dito a respeito da produção intelectual que ele passou a vida construindo, nada vai mudar o fato de que a reportagem saiu e a denegriu. no caso de outras profissões, atitudes similares seriam obviamente punidas, com, por exemplo, a perda do registro profissional do indivíduo que fizesse mal exercício do seu diploma - é o que ocorre com médicos que, por displiscência, acabam tirando a vida de seus pacientes.
os jornalistas não admitem que um conselho que fiscalize como sua atividade profissional vem sendo exercida seja criado, ainda que este conselho seja composto por seus próprios companheiros de profissão, e não por funcionários do estado, alegando que isso seria um retrocesso à censura, tal qual ocorria na ditadura militar. a ditadura militar brasileira (que, diga-se de passagem, não inventou a longa história de censura no brasil) é utilizada estrategicamente (e apenas estrategicamente) para simbolizar um demônio que devemos combater. mas, ao chamar de censura o que seria a fiscalização de uma profissão, acabamos nas mãos de um outro tipo de ditadura, já que não é possível, não há instrumentos eficazes para combater o mal jornalismo que anda por aí. a liberdade de imprensa foi uma vitória, sim, conquistada por muita gente que nunca entrou na redação de um jornal e que hoje é classificada, inclusive pela imprensa, como "comunistas baderneiros". e a liberdade de imprensa não existe, até onde eu sei, para que os jornalistas tenham o direito de agir irresponsavelmente sobre as vidas de outras pessoas.
como disse o bourdieu, o jornalismo é um assunto muito sério. e parece muito sério também todo o apoio popular que eu tenho visto o dunga recebendo pelas suas atitudes "mal educadas" nas coletivas após os jogos do brasil. parece também bastante sério o "cala a boca, galvão" que ganhou o mundo. não parece que só o dunga tenha percebido o que um jornalista pode fazer sobre uma reputação - e o que muitos deles têm efetivamente feito. é uma pena que a globo utilize a concessão que ganhou do estado brasileiro para tentar sair de vítima nesta história. se o dunga tem apoio, é porque as pessoas realmente não aguentam mais o jornalismo brasileiro. seria mais produtivo se fizessem (não apenas a globo, mas todo o campo jornalístico brasileiro, que conta com muitos profissionais sérios e interessados) uma crítica de sua responsabilidade e dos usos de sua profissão. mas uma crítica séria, não uma falsa adesão, como no caso do "cala a boca, galvão".
como isso está bem longe de acontecer, deixo o recadinho do nosso querido dunga, que ganhou merecidamente a minha torcida nesta copa.
e também deixo uma leitura de cabeceira para orientar o pensamento sobre tudo isso. a tv precisa de um contrapoder.
Pierre Bourdieu Sobre a televisão (seguido de A influência do jornalismo e Os jogos olímpicos)
podem alegar que foi falta de educação, indelicadeza (!) e outras coisas do gênero, mas o fato é que jornalistas (não apenas esportivos) têm o incrível poder de destruir reputações com poucas palavras, por mais educadas e delicadas que elas possam parecer. e, como não há a possibilidade de criação de um órgão que regule esta atividade, já que os próprios jornalistas se aproveitam do grande espaço de que dispõem na vida das pessoas para alegar que tal órgão seria um instrumento de censura, eis que esta profissão aparece com grande penetração social e podendo agir mais ou menos como bem entender sem maiores consequências. um bom exemplo disso é o recente caso do antropólogo eduardo viveiros de castro e a revista veja, que teve grande repercussão nos meios acadêmicos, mas que muito provavelmente só chegou ao público mais amplo na forma da péssima reportagem da revista sobre a antropologia e as terras indígenas. ou seja, por mais que viveiros de castro venha a processar a veja pelo que foi (mal) dito a respeito da produção intelectual que ele passou a vida construindo, nada vai mudar o fato de que a reportagem saiu e a denegriu. no caso de outras profissões, atitudes similares seriam obviamente punidas, com, por exemplo, a perda do registro profissional do indivíduo que fizesse mal exercício do seu diploma - é o que ocorre com médicos que, por displiscência, acabam tirando a vida de seus pacientes.
os jornalistas não admitem que um conselho que fiscalize como sua atividade profissional vem sendo exercida seja criado, ainda que este conselho seja composto por seus próprios companheiros de profissão, e não por funcionários do estado, alegando que isso seria um retrocesso à censura, tal qual ocorria na ditadura militar. a ditadura militar brasileira (que, diga-se de passagem, não inventou a longa história de censura no brasil) é utilizada estrategicamente (e apenas estrategicamente) para simbolizar um demônio que devemos combater. mas, ao chamar de censura o que seria a fiscalização de uma profissão, acabamos nas mãos de um outro tipo de ditadura, já que não é possível, não há instrumentos eficazes para combater o mal jornalismo que anda por aí. a liberdade de imprensa foi uma vitória, sim, conquistada por muita gente que nunca entrou na redação de um jornal e que hoje é classificada, inclusive pela imprensa, como "comunistas baderneiros". e a liberdade de imprensa não existe, até onde eu sei, para que os jornalistas tenham o direito de agir irresponsavelmente sobre as vidas de outras pessoas.
como disse o bourdieu, o jornalismo é um assunto muito sério. e parece muito sério também todo o apoio popular que eu tenho visto o dunga recebendo pelas suas atitudes "mal educadas" nas coletivas após os jogos do brasil. parece também bastante sério o "cala a boca, galvão" que ganhou o mundo. não parece que só o dunga tenha percebido o que um jornalista pode fazer sobre uma reputação - e o que muitos deles têm efetivamente feito. é uma pena que a globo utilize a concessão que ganhou do estado brasileiro para tentar sair de vítima nesta história. se o dunga tem apoio, é porque as pessoas realmente não aguentam mais o jornalismo brasileiro. seria mais produtivo se fizessem (não apenas a globo, mas todo o campo jornalístico brasileiro, que conta com muitos profissionais sérios e interessados) uma crítica de sua responsabilidade e dos usos de sua profissão. mas uma crítica séria, não uma falsa adesão, como no caso do "cala a boca, galvão".
como isso está bem longe de acontecer, deixo o recadinho do nosso querido dunga, que ganhou merecidamente a minha torcida nesta copa.
e também deixo uma leitura de cabeceira para orientar o pensamento sobre tudo isso. a tv precisa de um contrapoder.
Pierre Bourdieu Sobre a televisão (seguido de A influência do jornalismo e Os jogos olímpicos)
12.3.10
79. porto alegre na década de 1920
pesquisando no correio do povo da década de 1920 (belíssima aquisição recente do núcleo de pesquisa histórica da UFRGS), encontrei algumas curiosidades, principalmente relacionadas à publicidade da época.
a primeira que posto aqui é um anúncio da peça "o demônio familiar", de josé de alencar, que difunde a ideia de que o negro deve ser tutelado.
esta peça foi encenada pela primeira vez em 5 de novembro de 1857, no rio de janeiro, e recebeu os maiores elogios de toda a imprensa da época - à exceção de paula brito, no jornal a marmota. de fato, ela parece ter sido um marco na dramaturgia brasileira, já que rompeu com o teatro romântico, introduzindo a discussão sobre problemas sociais no teatro da terrinha.
bom, em 1857 uma peça que apresenta um escravo intrigueiro que por motivos mesquinhos arruína os destinos de vários personagens, está bem obviamente, digamos, dentro do contexto. a própria repercussão que a peça teve denota o quanto este (a instituição escravista) era um assunto a ser debatido. o nosso grande josé de alencar se posicionou politicamente acerca de um assunto candente do período.
mas esta peça foi novamente encenada em porto alegre no ano de 1922, no principal teatro da cidade. mais uma vez: ok ser uma peça em primeiro lugar de um autor canônico, considerado um dos grandes nacionais. entretanto, o assunto da peça, tão aparentemente restrito ao século XIX, sendo novamente posto em cena quase 70 anos depois... certamente nos possibilita reflexões acerca do nosso pós-abolição, hã?
não que o josé de alencar, por ter escrito lá no século XIX, não tenha contado com outras possibilidades de posicionamento. a perspectiva que ele deu à peça - e a toda uma questão social envolvendo a escravidão no brasil, então único país independente ainda escravista - foi a que ele escolheu dentre outras possíveis. vide machado de assis, por exemplo.
mas o que eu quero dizer é que normalmente as pessoas restringem os problemas gerados pela escravidão ao período anterior a 1888. a não ser pelo trabalho dos próprios historiadores, certos aspectos da história recente do país vão sendo aos poucos convenientemente esquecidos.
quando a gente se depara com algo tão real quanto um pedaço de um jornal de grande circulação em porto alegre (não no rio ou em são paulo, aqui mesmo), falando sobre uma peça a ser encenada no principal - e mais chique - teatro da cidade, sendo que essa peça defende a ideia da necessidade da tutela sobre a propulação negra - e isso tudo no ano de 1922 - talvez algumas coisas se tornem mais concretas.
sei que a digitalização não saiu das melhores, mas repare na cara do escravo, pedro. o próprio desenho que divulga a peça já indica que o principal do texto de josé de alencar parece ter sido mantido: o caráter do escravo. não por acaso, nesta mesma década de 1920 se firmavam teorias acerca do caráter do negro... aliás, não é difícil encontrar algumas delas no próprio correio do povo, devidamente assinadas por ilustres cidadãos gaúchos.
voltando ao século XIX, uma das pessoas que conferiu uma crítica muito positiva ao demônio familiar foi o próprio machado de assis. reproduzo o texto dele, de 1866, logo aqui abaixo, pensando no que o cara que foi o autor dos personagens subalternos mais interessantes da literatura brasileira oitocentista queria dizer com isso...
a primeira que posto aqui é um anúncio da peça "o demônio familiar", de josé de alencar, que difunde a ideia de que o negro deve ser tutelado.
esta peça foi encenada pela primeira vez em 5 de novembro de 1857, no rio de janeiro, e recebeu os maiores elogios de toda a imprensa da época - à exceção de paula brito, no jornal a marmota. de fato, ela parece ter sido um marco na dramaturgia brasileira, já que rompeu com o teatro romântico, introduzindo a discussão sobre problemas sociais no teatro da terrinha.
bom, em 1857 uma peça que apresenta um escravo intrigueiro que por motivos mesquinhos arruína os destinos de vários personagens, está bem obviamente, digamos, dentro do contexto. a própria repercussão que a peça teve denota o quanto este (a instituição escravista) era um assunto a ser debatido. o nosso grande josé de alencar se posicionou politicamente acerca de um assunto candente do período.
mas esta peça foi novamente encenada em porto alegre no ano de 1922, no principal teatro da cidade. mais uma vez: ok ser uma peça em primeiro lugar de um autor canônico, considerado um dos grandes nacionais. entretanto, o assunto da peça, tão aparentemente restrito ao século XIX, sendo novamente posto em cena quase 70 anos depois... certamente nos possibilita reflexões acerca do nosso pós-abolição, hã?
não que o josé de alencar, por ter escrito lá no século XIX, não tenha contado com outras possibilidades de posicionamento. a perspectiva que ele deu à peça - e a toda uma questão social envolvendo a escravidão no brasil, então único país independente ainda escravista - foi a que ele escolheu dentre outras possíveis. vide machado de assis, por exemplo.
mas o que eu quero dizer é que normalmente as pessoas restringem os problemas gerados pela escravidão ao período anterior a 1888. a não ser pelo trabalho dos próprios historiadores, certos aspectos da história recente do país vão sendo aos poucos convenientemente esquecidos.
quando a gente se depara com algo tão real quanto um pedaço de um jornal de grande circulação em porto alegre (não no rio ou em são paulo, aqui mesmo), falando sobre uma peça a ser encenada no principal - e mais chique - teatro da cidade, sendo que essa peça defende a ideia da necessidade da tutela sobre a propulação negra - e isso tudo no ano de 1922 - talvez algumas coisas se tornem mais concretas.
sei que a digitalização não saiu das melhores, mas repare na cara do escravo, pedro. o próprio desenho que divulga a peça já indica que o principal do texto de josé de alencar parece ter sido mantido: o caráter do escravo. não por acaso, nesta mesma década de 1920 se firmavam teorias acerca do caráter do negro... aliás, não é difícil encontrar algumas delas no próprio correio do povo, devidamente assinadas por ilustres cidadãos gaúchos.
voltando ao século XIX, uma das pessoas que conferiu uma crítica muito positiva ao demônio familiar foi o próprio machado de assis. reproduzo o texto dele, de 1866, logo aqui abaixo, pensando no que o cara que foi o autor dos personagens subalternos mais interessantes da literatura brasileira oitocentista queria dizer com isso...
O TEATRO DE JOSÉ DE ALENCAR
Uma grande parte das nossas obras dramáticas apareceu neste último decênio, devendo contar-se entre elas as estréias de autores de talento e de reputação, tais como os Srs. Conselheiro José de Alencar, Quintino Bocaiúva, Pinheiro Guimarães e outros. O Sr. Dr. Macedo apresentou ao público, no mesmo período, novos dramas e comédias, e estava obrigado a fazê-lo, como autor do Cego e do Cobé. Desgraçadamente, causas que os leitores não ignoram fizeram cessar o entusiasmo de uma época que deu muito, e prometia mais. Deveremos citar entre essas causas a sedução política? Não há um, dos quatro nomes citados, que não tenha cedido aos requebros da deusa, uns na imprensa, outros na tribuna. Ora, a política que já nos absorveu, entre outros, três brilhantes talentos poéticos, o Sr. conselheiro Otaviano, o Sr. senador Firmino, o Sr. conselheiro José Maria do Amaral, ameaça fazer novos raptos na família das musas. Parece-nos, todavia, que se podem conciliar os interesses da causa pública e da causa poética. Basta romper de uma vez com o preconceito de que não cabem na mesma fronte os louros da Fócion e os louros de Virgílio. Por que razão o poema inédito do Sr. conselheiro Amaral e as poesias soltas do Sr. conselheiro Otaviano não fariam boa figura ao lado dos seus despachos diplomáticos e dos seus escritos políticos? Até que ponto deve prevalecer um preconceito que condena espíritos educados em boa escola literária ao cultivo clandestino das musas? Felizmente, devemos reconhecê-lo, vai-se rompendo a pouco e pouco com os velhos hábitos.
O Sr. Dr. Macedo, que ocupa um lugar na política militante, publicou há tempos um romance; o Sr. Dr. Pedro Luís não hesita em compor uma ode, depois de proferir um discurso na câmara; o Sr. conselheiro Alencar, que, apesar de retirado da cena política, será mais tarde ou mais cedo chamado a ela, enriqueceu a lista dos seus títulos literários. Que nenhum deles esmoreça nestes propósitos; é um serviço que a posteridade lhes agradecerá.
Desculpe-nos se há ingenuidade nestas reflexões; nem nos levem a mal se assumimos por este modo a promotoria do Parnaso, fazendo um libelo contra a república. Contra, não; mesmo que pregássemos o divórcio das musas e da política, ainda assim não conspirávamos em desfavor da sociedade; de qualquer modo é servi-la, e a história nos mostra que, após um longo período de séculos, é principalmente a musa de Homero que nos faz amar a pátria de Aristides.
Dos recentes poetas dramáticos a que nos referimos no começo deste artigo, é o Sr. Alencar um dos mais fecundos e laboriosos. Estreou em 1857, com uma comédia em dois atos, Verso e reverso. A primeira representação foi anunciada sem nome de autor, e os aplausos com que foi recebida a obra animaram-lhe a vocação dramática; daí para cá escreveu o autor uma série de composições que lhe criaram uma reputação verdadeiramente sólida. Verso e reverso foi o prenúncio; não é decerto uma composição de longo fôlego; é uma simples miniatura, fina e elegante, uma coleção de episódios copiados da vida comum, ligados todos a uma verdadeira idéia de poeta. Essa idéia é simples: o efeito do amor no resultado das impressões do homem. Aos olhos de protagonista, no curto intervalo de três meses, o mesmo quadro aparece sob um ponto de vista diverso; começa por achar no Rio de Janeiro um inferno, acaba de ver nele um paraíso; a influência da mulher explica tudo. Dizer isto é contar a comédia; a ação, de extrema simplicidade, não tem complicados enredos; mas o interesse mantém-se de princípio a fim, através de alguns episódios interessantes e de um diálogo vivo e natural.
Verso e reverso não se recomenda só por essas qualidades, mas também pela fiel pintura de alguns hábitos e tipos da época; alguns deles tendem a desaparecer, outros desapareceram e arrastariam consigo a obra do poeta, se ela não contivesse os elementos que guardam a vida, mesmo através das mudanças do tempo. Aquela comédia não encerra todo o autor das Asas de um anjo, mas já se deixa ver ali a sua maneira, o seu estilo, o seu diálogo, tudo quanto representa a sua personalidade literária, extremamente original, extremamente própria. Há sobretudo um traço no talento dramático do Sr. Alencar, que já ali aparece de uma maneira viva e distinta; é a observação das coisas, que vai até as menores minuciosidades da vida, e a virtude do autor resulta dos esforços que faz por não fazer cair em excesso aquela qualidade preciosa. É sem dúvida necessário que uma obra dramática, para ser do seu tempo e do seu país, reflita uma certa parte dos hábitos externos, e das condições e usos peculiares da sociedade em que nasce; mas além disto, quer a lei dramática que o poeta aplique o valioso dom da observação a uma ordem de idéias mais elevadas e é isso justamente o que não esqueceu o autor do Demônio familiar. O quadro do Verso e reverso era restrito demais para empregar rigorosamente esta condição da arte; e todavia há de merecer a atenção dos espectadores, ainda quando desapareçam completamente da sociedade fluminense os elementos postos em jogo pelo autor; e isso graças a três coisas: ao pensamento capital da peça, ao desenho feliz de alguns caracteres, e às excelentes qualidade do diálogo.
Verso e reverso deveu o bom acolhimento que teve, não só aos seus merecimentos, senão também à novidade da forma. Até então a comédia brasileira não procurava os modelos mais estimados; as obras do finado Pena, cheias de talento e de boa veia cômica, prendiam-se intimamente às tradições da farsa portuguesa, o que não é desmerecê-la mas defini-la; se o autor do Noviço vivesse, o seu talento, que era dos mais auspiciosos, teria acompanhado o tempo, e consorciaria os progressos da arte moderna às lições da arte clássica.
Verso e reverso não era ainda a alta comédia, mas era a comédia elegante; era a sociedade polida que entrava no teatro, pela mão de um homem que reunia em si a fidalguia do talento e a fina cortesia do salão.
A alta comédia apareceu logo depois, com o Demônio familiar. Essa é uma comédia de maior alento; o autor abraça aí um quadro mais vasto. O demônio da comédia, o moleque Pedro, é o Fígaro brasileiro, menos as intenções filosóficas e os vestígios políticos do outro. A introdução de Pedro em cena oferecia graves obstáculos; era preciso escapar-lhes por meios hábeis e seguros.
Depois, como apresentar ao espírito do espectador o caráter do intrigante doméstico, mola real da ação, sem fazê-lo odioso e repugnante? Até que ponto fazer rir com indulgência e bom humor das intrigas do demônio familiar? Esta era a primeira dificuldade do caráter e do assunto. Pelo resultado já sabem os leitores que o autor venceu a dificuldade, dando ao moleque Pedro as atenuantes do seu procedimento, até levantá-lo mesmo ante a consciência do público.
Primeiramente, Pedro é o mimo da família, o enfant gâté, como diria o viajante Azevedo; e nisso pode-se ver desde logo um traço característico da vida brasileira. Colocado em uma condição intermediária, que não é nem a do filho nem a do escravo, Pedro usa e abusa de todas as liberdades que lhe dá a sua posição especial; depois, como abusa ela dessas liberdades? por que serve de portador às cartinhas amorosas de Alfredo? por que motivo compromete os amores de Eduardo por Henriqueta, e tenta abrir as relações de seu senhor com uma viúva rica? Uma simples aspiração de pajem e cocheiro; e aquilo que noutro repugnaria à consciência dos espectadores, acha-se perfeitamente explicado no caráter de Pedro. Com efeito, não se trata ali de dar um pequeno móvel a uma série de ações reprovadas; os motivos do procedimento de Pedro são realmente poderosos, se atendermos a que a posição sonhada pelo moleque, está de perfeito acordo com o círculo limitado das suas aspirações, e da sua condição de escravo; acrescente-lhe a isto a ignorância, a ausência de nenhum sentimento do dever, e tem-se a razão da indulgência com que recebemos as intrigas do Fígaro fluminense.
Parece-nos ter compreendido bem a significação do personagem principal do Demônio familiar; esta foi, sem dúvida, a série de reflexões feitas pelo autor para transportar ao teatro aquele tipo eminentemente nosso. Ora, desde que entra em cena até o fim da peça, o caráter de Pedro não se desmente nunca: é a mesma vivacidade, a mesma ardileza, a mesma ignorância do alcance dos seus atos; e se de certo ponto em diante, cedendo as admoestações do senhor; emprega as mesmas armas da primeira intriga em uma nova intriga que desfaça aquela, esse novo traço é o complemento do tipo. Nem é só isso: delatando os cálculos de Vasconcelos a respeito do pretendente de Henriqueta, Pedro usa do seu espírito enredador, sem grande consciência nem do bem nem do mal que pratica; mas a circunstância de desfazer um casamento que servia aos interesses de dois especuladores, dá aos olhos do espectador uma lição verdadeiramente de comédia.
O Demônio familiar apresenta um quadro de família, com o verdadeiro cunho da família brasileira; reina ali um ar de convivência e de paz doméstica, que encanta desde logo; só as intrigas de Pedro transtornam aquela superfície: corre a ação ligeira, interessante, comovente mesmo, através de quatro atos, bem deduzidos e bem terminados. No desfecho da peça, Eduardo dá a liberdade ao escravo, fazendo-lhe ver a grave responsabilidade que desse dia em diante deve pesar sobre ele, a quem só a sociedade pedirá contas. O traço é novo, a lição profunda. Não supomos que o Sr. Alencar dê às suas comédias um caráter de demonstração; outro é o destino da arte; mas a verdade é que as conclusões do Demônio familiar, como as conclusões de Mãe, têm caráter que consolam a consciência; ambas as peças, sem saírem das condições da arte, mas pela própria pintura dos sentimentos e dos fatos, são um protesto contra a instituição do cativeiro.
Em Mãe é a escrava que se sacrifica à sociedade, por amor do filho; no Demônio familiar, é a sociedade que se vê obrigada a restituir a liberdade ao escravo delinqüente.
A peça acaba, sem abalos nem grandes peripécias, com a volta da paz da família e da felicidade geral. All is well that ends well, como na comédia de Shakespeare.
Não entramos nas minúcias da peça; apenas atendemos para o que ela apresenta de mais geral e mais belo; e contudo não falta ainda que apreciar no Demônio familiar, como por exemplo, os tipos de Azevedo e de Vasconcelos, as duas amigas Henriqueta e Carlotinha, tão brasileiras no espírito e na linguagem, e o caráter de Eduardo, nobre, generoso, amante. Eduardo sonha a família, a mulher, os hábitos domésticos, pelo padrão da família dele e dos costumes puros de sua casa.
Mais de uma vez enuncia ele os seus desejos e aspirações, e é para agradecer a insistência com que o autor faz voltar o espírito do personagem para esse assunto.
“A sociedade, diz Eduardo, isto é, a vida exterior, ameaça destruir a família, isto é, a vida interior.” A esta frase acrescentaremos este período: “A mulher moderna, diz Madama d’Agout, vive em um centro, que não é nem o ar grave da matrona romana, nem a morada aberta e festiva da cortesã grega, mas uma coisa intermediária que se chama sociedade, isto é, a reunião sem objeto de espíritos ociosos, sujeitos às prescrições de uma moral que pretende em vão conciliar as diversões de galanteria com os deveres da família.” Há, sem dúvida, mais coisas a dizer sobre a excelente comédia do Sr. José de Alencar; não nos falta disposição, mas espaço; nesta tarefa de apreciação literária há momentos de verdadeiro prazer; é quando se trata de um brilhante e de uma obra de gosto. Quando podemos achar uma dessas ocasiões é só com extremo pesar que não a aproveitamos toda.
Guardamos para outro artigo a apreciação das demais obras do distinto doutor do Demônio familiar.
6 de março de 1866.
8.2.10
74. das resenhas de hotéis enquanto gênero narrativo de interesse
última semana passei em campinas, com o desenho.
deveríamos tê-la passado no famigerado kitnet do carlão, alugado por mim, não fosse o triste fato deste ter ficado completamente mofado nos dois meses em que estive ausente.
afora mais uma eloquente prova da hospitalidade paulista, oferecida tanto por rafaela quanto por giovani, outro importante ganho da fatídica viagem foi a descoberta de um interessante gênero narrativo ainda por mim desconhecido: trata-se das resenhas de hotéis.
à procura de uma pousada ou hotel barato em campinas onde pudéssemos ficar, utilizei, obviamente, os serviços prestados pelo google neste ramo, contendo o mapa com a localização do hotel e, eventualmente, resenhas escritas por outros usuários. é brilhante. após algum tempo, já não mais me dedicava a buscar um hotel onde pudéssemos ficar, mas sim a apreciar as impressionantes descrições de situações as mais escabrosas vividas em hotéis, pousadas, motéis e pensões campineiras.
em geral rico em adjetivos, tal gênero também se caracteriza pelo detalhamento do estado psicológico da pessoa que ousou se hospedar em certos locais. o agravamento do estado de tensão se dá, normalmente, após o contato com as miseráveis acomodações, com o aspecto insalubre dos móveis, roupas de cama e/ou instalações sanitárias, ou com o despreparo dos atendentes.
o narrador é, comumente, alguém que sofre ou sofreu graves intempéries nas mãos de uma rede hoteleira precária e que se solidariza com outras possíveis vítimas de tal estado de coisas, optando por relatar literariamente sua experiência, tentando dar ao leitor, pela via de uma escrita densa e contundente, ao mesmo tempo descritiva e psicológica, embora curta, um retrato preciso das situações que viveu.
deixo para apreciação pública, os linques de alguns dos meus favoritos:
motel em campinas 1
motel em campinas 2
hoteleco simpático em porto alegre 1
hotel do centro - porto alegre 2
deveríamos tê-la passado no famigerado kitnet do carlão, alugado por mim, não fosse o triste fato deste ter ficado completamente mofado nos dois meses em que estive ausente.
afora mais uma eloquente prova da hospitalidade paulista, oferecida tanto por rafaela quanto por giovani, outro importante ganho da fatídica viagem foi a descoberta de um interessante gênero narrativo ainda por mim desconhecido: trata-se das resenhas de hotéis.
à procura de uma pousada ou hotel barato em campinas onde pudéssemos ficar, utilizei, obviamente, os serviços prestados pelo google neste ramo, contendo o mapa com a localização do hotel e, eventualmente, resenhas escritas por outros usuários. é brilhante. após algum tempo, já não mais me dedicava a buscar um hotel onde pudéssemos ficar, mas sim a apreciar as impressionantes descrições de situações as mais escabrosas vividas em hotéis, pousadas, motéis e pensões campineiras.
em geral rico em adjetivos, tal gênero também se caracteriza pelo detalhamento do estado psicológico da pessoa que ousou se hospedar em certos locais. o agravamento do estado de tensão se dá, normalmente, após o contato com as miseráveis acomodações, com o aspecto insalubre dos móveis, roupas de cama e/ou instalações sanitárias, ou com o despreparo dos atendentes.
o narrador é, comumente, alguém que sofre ou sofreu graves intempéries nas mãos de uma rede hoteleira precária e que se solidariza com outras possíveis vítimas de tal estado de coisas, optando por relatar literariamente sua experiência, tentando dar ao leitor, pela via de uma escrita densa e contundente, ao mesmo tempo descritiva e psicológica, embora curta, um retrato preciso das situações que viveu.
deixo para apreciação pública, os linques de alguns dos meus favoritos:
motel em campinas 1
motel em campinas 2
hoteleco simpático em porto alegre 1
hotel do centro - porto alegre 2
18.11.09
73. bourdieu em alvorada?!
"não contentes em não deter pelo menos alguns dos conhecimentos ou maneiras valorizados no mercado dos exames escolares ou das conversas mundanas e em não possuir senão habilidades ou saberes que não têm nenhum valor nesses mercados, não contentes, em resumo, em estar despojados do saber e da boa educação, eles são ainda aqueles que 'não sabem viver', aqueles que mais se sacrificam pelos alimentos materiais, e pelos mais pesados, mais grosseiros e os que mais engordam - pão, batatas e gorduras - pelos mais vulgares também, como o vinho; aqueles que destinam menos ao vestuário e aos cuidados corporais, aos cosméticos e à estética; aqueles que 'não sabem descansar', que 'encontram sempre alguma coisa para fazer'; que vão fincar sua barraca nos campings superpovoados, que se instalam para fazer piquenique à beira das estradas, que se metem com seu renault 5, ou seu simca 1000 nos engarrafamentos das saídas de férias, que se dedicam aos lazeres pré-fabricados concebidos em sua intenção pelos engenheiros da produção cultural em massa; aqueles que, por todas essas escolhas tão mal inspiradas, confirmam o racismo de classe, se for preciso, na convicção de que não têm senão aquilo que merecem."
13.11.09
72.
ontem à noite me entristeci sinceramente porque teria de deixar campinas muito em breve.
ontem? não, anteontem.
bom, o fato é que hoje eu penso que talvez campinas já tenha dado o que tinha que dar mesmo. já estou bem de saco cheio e o bom vai ser poder voltar quando não mais houver conhecidos por aqui.
é intrigante como as coisas são. mesmo tendo tentado desenvolver o comportamento mais antisocial possível, os bolos sempre acabam chegando até a gente. detesto gastar meu tempo com tematizações sobre a vida ordinária, a minha ou a de outras pessoas, o que provavelmente me torne mais desinteressante do que a maioria gostaria, mas eu realmente me incomodo sobremaneira com boa parte das coisas consideradas relevantes pelo restante dos seres humanos, talvez em especial os acadêmicos.
em primeiro lugar, porque não gosto que a vida fique tensa e chata, e sei que ela não precisa ser assim. também não precisa ser uma competição sobre todo e qualquer pormenor mais esdrúxulo e mesquinho. acredito, em terceiro lugar, que existe um milhão de assuntos mais interessantes do que a própria vida ou a dos outros (a menos que haja alguma espécie de narrativa lúdica com valor em si). em quarto lugar, acho que nem tudo que é do jeito que é precisa ser desse jeito: os comportamentos são inventados e as pessoas podem inventar como vão se relacionar, como vão lidar com as coisas, como vão ser. não existe uma verdade, uma moral ou qualquer coisa que diga como eu devo agir em relação aos assuntos mais envolvidos em tabu. ok, sei que é óbvio, mas nem sempre parece. ainda bem que eu tenho o desenho e ele sabe que é assim. and you never leave me and you know it's true / cause you like me too much and I like you.
bom, eu não tenho mais saco pra campinas, chegou a hora de voltar.
ainda levará alguns longos dias, mas não pretendo gastá-los com absolutamente nada que me incomode e que não me cause prazer. talvez eu não tenha sido suficientemente antisocial. é bem provável que não.
bom, campinas foi uma experiência interessante para pensar as relações humanas. aprendeu quem quis, quem não quis se fudeu, colega.
eu sei que valorizo cada dia mais o desenho.
e também valorizo cada dia mais quem eu sou e as coisas nas quais eu acredito.
essa noite foi uma péssima noite e eu não consegui dormir direito. dormi apenas poucas horas. sinto falta do carlos. daqui a pouco começa a obra e eu não vou conseguir dormir. me sinto sobrecarregada, mas não de atividades acadêmicas, livros ou de trabalho no arquivo. me sinto de saco cheio.
bom, como eu li por aí, as cidades servem pra ser abandonadas. qualquer um que se apega demais a uma cidade se torna um chato e esse tipo de chato eu não pretendo ser. afinal, o tipo de chato que eu vou ser é um direito meu, né?
em todo caso, chega de feira de vaidades, caretices e chatices diversas. chega de gente caretona. chega de peso nos ombros.
provavelmente hoje vai ser um dia em que vou estar muito de mau humor. um belo dia, sem bom humor.
eu vou ser o chato que bota vídeos que só tem a música.
ontem? não, anteontem.
bom, o fato é que hoje eu penso que talvez campinas já tenha dado o que tinha que dar mesmo. já estou bem de saco cheio e o bom vai ser poder voltar quando não mais houver conhecidos por aqui.
é intrigante como as coisas são. mesmo tendo tentado desenvolver o comportamento mais antisocial possível, os bolos sempre acabam chegando até a gente. detesto gastar meu tempo com tematizações sobre a vida ordinária, a minha ou a de outras pessoas, o que provavelmente me torne mais desinteressante do que a maioria gostaria, mas eu realmente me incomodo sobremaneira com boa parte das coisas consideradas relevantes pelo restante dos seres humanos, talvez em especial os acadêmicos.
em primeiro lugar, porque não gosto que a vida fique tensa e chata, e sei que ela não precisa ser assim. também não precisa ser uma competição sobre todo e qualquer pormenor mais esdrúxulo e mesquinho. acredito, em terceiro lugar, que existe um milhão de assuntos mais interessantes do que a própria vida ou a dos outros (a menos que haja alguma espécie de narrativa lúdica com valor em si). em quarto lugar, acho que nem tudo que é do jeito que é precisa ser desse jeito: os comportamentos são inventados e as pessoas podem inventar como vão se relacionar, como vão lidar com as coisas, como vão ser. não existe uma verdade, uma moral ou qualquer coisa que diga como eu devo agir em relação aos assuntos mais envolvidos em tabu. ok, sei que é óbvio, mas nem sempre parece. ainda bem que eu tenho o desenho e ele sabe que é assim. and you never leave me and you know it's true / cause you like me too much and I like you.
bom, eu não tenho mais saco pra campinas, chegou a hora de voltar.
ainda levará alguns longos dias, mas não pretendo gastá-los com absolutamente nada que me incomode e que não me cause prazer. talvez eu não tenha sido suficientemente antisocial. é bem provável que não.
bom, campinas foi uma experiência interessante para pensar as relações humanas. aprendeu quem quis, quem não quis se fudeu, colega.
eu sei que valorizo cada dia mais o desenho.
e também valorizo cada dia mais quem eu sou e as coisas nas quais eu acredito.
essa noite foi uma péssima noite e eu não consegui dormir direito. dormi apenas poucas horas. sinto falta do carlos. daqui a pouco começa a obra e eu não vou conseguir dormir. me sinto sobrecarregada, mas não de atividades acadêmicas, livros ou de trabalho no arquivo. me sinto de saco cheio.
bom, como eu li por aí, as cidades servem pra ser abandonadas. qualquer um que se apega demais a uma cidade se torna um chato e esse tipo de chato eu não pretendo ser. afinal, o tipo de chato que eu vou ser é um direito meu, né?
em todo caso, chega de feira de vaidades, caretices e chatices diversas. chega de gente caretona. chega de peso nos ombros.
provavelmente hoje vai ser um dia em que vou estar muito de mau humor. um belo dia, sem bom humor.
eu vou ser o chato que bota vídeos que só tem a música.
18.9.09
59.
a andrea é tão completamente maluca que foi capaz de transformar esta inocente foto do cachorrinho acadêmico querendo curtir a discussão da aula do bob (postada por marcos em seu orkut e obtida pelo marcus na aula), em um tétrico enredo cinematográfico. tumbas abertas (violadas pelo simpático cachorrinho), simulações de homicídio (e/ou suicídio) que incluem o ritual do enterro, mudança de cor da pele (meio michael jackson - quem sabe esta simplória fotinha não nos levaria ao trhiller?), gêmeas albinas e siamesas (obviamente) e o pobre cachorro fazendo a próxima seleção para história social da áfrica.
e depois eu me choco com a história da guria esfaqueada no joelho em pleno campus do vale. bom, essa história pelo menos ocorreu de verdade, né...
e depois eu me choco com a história da guria esfaqueada no joelho em pleno campus do vale. bom, essa história pelo menos ocorreu de verdade, né...
24.8.09
49. franco moretti: gráficos
terminei o capítulo sobre o uso de gráficos em história da literatura do livro do franco moretti, "a literatura vista de longe".
o franco moretti é um italiano que leciona literatura comparada na universidade de stanford e tem se ocupado de pensar a história da literatura diferentemente da crítica tradicional. ele considera que a história da literatura preocupou-se tão somente com as obras clássicas e de refrência dos gêneros, dando muita ênfase aos cânones e esquecendo-se por completo da literatura "baixa", "pequena" ou como se quiser denominar aqueles escritores que permanecem até hoje no mais completo anonimato, e suas obras.
pro moretti, se olharmos a literatura "de longe", através de gráficos e de mapas, por exemplo, veremos uma nova literatura aflorar, já que levaria-se em conta todo o conjunto de escritores "menores" e que não se tornaram consagrados - mas que, no entanto, publicaram e foram lidos.
pois, toda a parte sobre os gráficos é bastante sugestiva e traz boas reflexões, mas não tenho certeza se chega a resultados muito inovadores - que seria a expectativa da utilização de novos métodos.
na verdade, a grande sacada que ele esperou trazer foi a percepção de ciclos numa história literária que abarque várias décadas (quem sabe séculos) de produção. então uma das coisas que ele defende é que os gêneros do romance convivem durante cerca de 20-30 anos e, simultaneamente, são todos juntos substituídos por novos gêneros. sendo assim, num mesmo momento histórico haveria vários "horizontes de expectativas", porque haveria vários gêneros literários em perfeita harmonia. mas, dentro de 20 ou 30 anos de convivência, estes gêneros, todos juntos (e isso é importante pro argumento dele), entrariam em declínio e seriam relegados ao ostracismo completo, sendo que outros gêneros novos tomariam o lugar deste antigo grupo.
ele não sabe muito bem explicar o porquê desta dinâmica, mas aposta que deve ter algo a ver com sucessões de gerações literárias. não há como explicar convincentemente a razão de os ciclos destas gerações serem tão estáveis (sempre duram de 20 a 30 anos).
bom, acho que ele coloca boas questões e o ponto de vista que esta metodologia faz emergir é de fato bastante intrigante. mas não me senti plenamente satisfeita com as soluções que ele encontra, ou, pelo menos, com a forma como ele as apresenta. acho que, até o momento, a literatura na história que ele conta ainda está muito afastada da história. sim, porque tomando apenas um conjunto de gráficos, embora novas e interessantes questões apareçam, não há como oferecer uma explicação que passe pela história. os gráficos tratam apenas da produção de livros. esta produção de livros, portanto, permanece alijada de todo o resto da época e dos homens que a produziram.
eu gostaria de trabalhar um tantinho com esta metodologia pra poder testar melhor estas coisas todas, tanto as questões que ele propõe, quanto uma crítica à maneira como os gráficos, mapas e bancos de dados são produzidos. sim, porque ele não deixa muito claro como estas coisas foram de fato elaboradas e de que forma esta confecção interfere nos resultados oferecidos. creio que seria deveras interessante mesclar esta literatura vista de longe do moretti com uma literatura vista bem de perto e testar os limites de cada uma delas.
a revista veja fez uma adaptação de alguns gráficos do moretti. evidentemente que são adaptações e o livro dele não é tão colorido assim.
o franco moretti é um italiano que leciona literatura comparada na universidade de stanford e tem se ocupado de pensar a história da literatura diferentemente da crítica tradicional. ele considera que a história da literatura preocupou-se tão somente com as obras clássicas e de refrência dos gêneros, dando muita ênfase aos cânones e esquecendo-se por completo da literatura "baixa", "pequena" ou como se quiser denominar aqueles escritores que permanecem até hoje no mais completo anonimato, e suas obras.
pro moretti, se olharmos a literatura "de longe", através de gráficos e de mapas, por exemplo, veremos uma nova literatura aflorar, já que levaria-se em conta todo o conjunto de escritores "menores" e que não se tornaram consagrados - mas que, no entanto, publicaram e foram lidos.
pois, toda a parte sobre os gráficos é bastante sugestiva e traz boas reflexões, mas não tenho certeza se chega a resultados muito inovadores - que seria a expectativa da utilização de novos métodos.
na verdade, a grande sacada que ele esperou trazer foi a percepção de ciclos numa história literária que abarque várias décadas (quem sabe séculos) de produção. então uma das coisas que ele defende é que os gêneros do romance convivem durante cerca de 20-30 anos e, simultaneamente, são todos juntos substituídos por novos gêneros. sendo assim, num mesmo momento histórico haveria vários "horizontes de expectativas", porque haveria vários gêneros literários em perfeita harmonia. mas, dentro de 20 ou 30 anos de convivência, estes gêneros, todos juntos (e isso é importante pro argumento dele), entrariam em declínio e seriam relegados ao ostracismo completo, sendo que outros gêneros novos tomariam o lugar deste antigo grupo.
ele não sabe muito bem explicar o porquê desta dinâmica, mas aposta que deve ter algo a ver com sucessões de gerações literárias. não há como explicar convincentemente a razão de os ciclos destas gerações serem tão estáveis (sempre duram de 20 a 30 anos).
bom, acho que ele coloca boas questões e o ponto de vista que esta metodologia faz emergir é de fato bastante intrigante. mas não me senti plenamente satisfeita com as soluções que ele encontra, ou, pelo menos, com a forma como ele as apresenta. acho que, até o momento, a literatura na história que ele conta ainda está muito afastada da história. sim, porque tomando apenas um conjunto de gráficos, embora novas e interessantes questões apareçam, não há como oferecer uma explicação que passe pela história. os gráficos tratam apenas da produção de livros. esta produção de livros, portanto, permanece alijada de todo o resto da época e dos homens que a produziram.
eu gostaria de trabalhar um tantinho com esta metodologia pra poder testar melhor estas coisas todas, tanto as questões que ele propõe, quanto uma crítica à maneira como os gráficos, mapas e bancos de dados são produzidos. sim, porque ele não deixa muito claro como estas coisas foram de fato elaboradas e de que forma esta confecção interfere nos resultados oferecidos. creio que seria deveras interessante mesclar esta literatura vista de longe do moretti com uma literatura vista bem de perto e testar os limites de cada uma delas.
a revista veja fez uma adaptação de alguns gráficos do moretti. evidentemente que são adaptações e o livro dele não é tão colorido assim.
22.8.09
21.8.09
40. aquele apartamentão
aquele apartamentão está quase pronto.
quase mesmo, falta só pintar (uma última demão de tinta) e lixar o parquê. no meio do mês que vem a sorrento vai colocar a cozinha, lindíssima, toda em fórmica na cor azul francês.
esta cozinha, aliás, foi um martírio. onde encontramos pessoas competentes que fazem móveis? será que ninguém nunca ouviu falar em fórmica, fórmica de verdade, a marca em si???
eu falava que queria em fórmica e me entregavam a paleta de cores de um laminado qualquer! era como se eu pedisse um nescau e me dessem um toddy, sabe?
também já inventei 1.845.984.287 de tipos diferentes de bancada para banheiro e confesso que talvez encontre no desenho e fabrico de objetos de decoração um tranquilo e agradável hobby. é pena, contudo, que tal atividade não esteja entre aquelas que a CAPES e o chalhoub avaliem como produtivas para o bom desenvolvimento de uma tese de doutorado.
em outro momento da vida já fiquei muito entusiasmada com o trabalho no arquivo e a produção de tabelas e bancos de dados, mas quem pode controlar as paixões, afinal? já faz um bom tempo que não tenho estado motivada a encarar as centenas de páginas do livro sobre escritores e nem mesmo franco moretti tem sido capaz de me animar. hum, porém agora a menção de seu nome me seduziu um pouco...
posso afirmar sem medo que a ideia de elaborar mapas sobre literatura e inferir coisas valendo-me de um sofisticado banco de dados me é bastante aprazível. não sei exatamente o que me impede de fazê-lo. tendo a apostar no clima, mesmo que me desvie perigosamente para uma crença no determinismo climático. a ausência do desenho poderia também ser uma boa razão para meu desânimo, mas creio que a presença dele igualmente me desmotivaria a fazer meu trabalho.
acho que preciso esgotar-me de fazer outras coisas até ansiar pelo retorno às atividades socio-mapístico-literárias. e torcer pra que o sol volte a brilhar em campinas - se eu não me animar, pelo menos a calça que está há uma semana no varal pode secar.
quase mesmo, falta só pintar (uma última demão de tinta) e lixar o parquê. no meio do mês que vem a sorrento vai colocar a cozinha, lindíssima, toda em fórmica na cor azul francês.
esta cozinha, aliás, foi um martírio. onde encontramos pessoas competentes que fazem móveis? será que ninguém nunca ouviu falar em fórmica, fórmica de verdade, a marca em si???
eu falava que queria em fórmica e me entregavam a paleta de cores de um laminado qualquer! era como se eu pedisse um nescau e me dessem um toddy, sabe?
também já inventei 1.845.984.287 de tipos diferentes de bancada para banheiro e confesso que talvez encontre no desenho e fabrico de objetos de decoração um tranquilo e agradável hobby. é pena, contudo, que tal atividade não esteja entre aquelas que a CAPES e o chalhoub avaliem como produtivas para o bom desenvolvimento de uma tese de doutorado.
em outro momento da vida já fiquei muito entusiasmada com o trabalho no arquivo e a produção de tabelas e bancos de dados, mas quem pode controlar as paixões, afinal? já faz um bom tempo que não tenho estado motivada a encarar as centenas de páginas do livro sobre escritores e nem mesmo franco moretti tem sido capaz de me animar. hum, porém agora a menção de seu nome me seduziu um pouco...
posso afirmar sem medo que a ideia de elaborar mapas sobre literatura e inferir coisas valendo-me de um sofisticado banco de dados me é bastante aprazível. não sei exatamente o que me impede de fazê-lo. tendo a apostar no clima, mesmo que me desvie perigosamente para uma crença no determinismo climático. a ausência do desenho poderia também ser uma boa razão para meu desânimo, mas creio que a presença dele igualmente me desmotivaria a fazer meu trabalho.
acho que preciso esgotar-me de fazer outras coisas até ansiar pelo retorno às atividades socio-mapístico-literárias. e torcer pra que o sol volte a brilhar em campinas - se eu não me animar, pelo menos a calça que está há uma semana no varal pode secar.
4.6.07
37. fechamento do acervo da luta contra a ditadura
Prezados:
O atual governo estadual do RS pretende realizar um ataque frontal à História. Através da secretária de Cultura Mônica Leal (filha do Coronel Pedro Américo Leal, que foi chefe de polícia e importante agente repressivo da ditadura aqui no RS), este governo pretende fechar o Acervo da Luta Contra a Ditadura. A Comissão do Acervo da Luta Contra a Ditadura, que coordenava o Acervo, já perdeu seus principais membros, que pediram afastamento de seus respectivos cargos na Comissão em repúdio a tal ação. Dentre eles, estão o juiz João Carlos Bona Garcia (presidente da Comissão), o professor de História da UFRGS Enrique Serra Padrós e as sociólogas Sônia Ferreira e Lícia Peres. O Acervo mantém uma grande quantidade de documentação histórica sobre o período, essenciais ao trabalho do historiador. Esses conjuntos documentais provavelmente serão desmembrados se tal medida autoritária se realizar. O acesso aos mesmos talvez chegue a ser inviabilizado, ocultando assim uma parte significativa da nossa história.
Na próxima terça, 5 de junho, estaremos realizando um ato em protesto, com o apoio do DCE da UFRGS. A concentração se dará às 9:00, em frente à Faculdade de Educação da UFRGS (Campus Centro, quase na esquina da Osvaldo).
Por favor, repassem esta notícia e nos ajudem na \ntentativa de barrar esse ato de autoritarismo do governo do Estado do RS. Aos periódicos eletrônicos, peço que divulguem matérias sobre o assunto, para o que me disponho a auxiliá-los em tudo que for possível.
Grato a todos pela atenção,
Jaime Valim Mansan
Graduado em História pela UFRGS, mestrando em História pela PUCRS
O atual governo estadual do RS pretende realizar um ataque frontal à História. Através da secretária de Cultura Mônica Leal (filha do Coronel Pedro Américo Leal, que foi chefe de polícia e importante agente repressivo da ditadura aqui no RS), este governo pretende fechar o Acervo da Luta Contra a Ditadura. A Comissão do Acervo da Luta Contra a Ditadura, que coordenava o Acervo, já perdeu seus principais membros, que pediram afastamento de seus respectivos cargos na Comissão em repúdio a tal ação. Dentre eles, estão o juiz João Carlos Bona Garcia (presidente da Comissão), o professor de História da UFRGS Enrique Serra Padrós e as sociólogas Sônia Ferreira e Lícia Peres. O Acervo mantém uma grande quantidade de documentação histórica sobre o período, essenciais ao trabalho do historiador. Esses conjuntos documentais provavelmente serão desmembrados se tal medida autoritária se realizar. O acesso aos mesmos talvez chegue a ser inviabilizado, ocultando assim uma parte significativa da nossa história.
Na próxima terça, 5 de junho, estaremos realizando um ato em protesto, com o apoio do DCE da UFRGS. A concentração se dará às 9:00, em frente à Faculdade de Educação da UFRGS (Campus Centro, quase na esquina da Osvaldo).
Por favor, repassem esta notícia e nos ajudem na \ntentativa de barrar esse ato de autoritarismo do governo do Estado do RS. Aos periódicos eletrônicos, peço que divulguem matérias sobre o assunto, para o que me disponho a auxiliá-los em tudo que for possível.
Grato a todos pela atenção,
Jaime Valim Mansan
Graduado em História pela UFRGS, mestrando em História pela PUCRS
30.6.06
15. o parthenon litterario
eu hoje me dei conta definitivamente de que essa pesquisa estava esperando por mim. ninguém fez nenhuma pesquisa histórica exclusivamente sobre o partenon até hoje porque essa era minha.
eu queria que o partenon literário tivesse dado certo. mas dado certo mesmo, queria que eles tivessem realmente feito o q pretendiam. algumas das coisas, pelo menos. eu queria ver o que ia ser porto alegre hoje. seria uma cidade melhor? seria uma cidade pior? seria a piada do brasil (mais)?
eu estou completamente ENVOLVIDA por esses caras. chorei quando li sobre a morte do apolinário. eu nem sei como escrever sobre isso, mas como não consigo pensar em outra coisa, eu preciso escrever sobre isso.
certo, eu vou direto ao assunto então: eles queriam construir um bairro grego na zona rural de porto alegre. na zona rural de porto alegre do SÉCULO XIX. em primeiro lugar, era no SÉCULO XIX. em segundo lugar, era em PORTO ALEGRE. e em terceiro lugar era na ZONA RURAL. ou seja: era no meio do mato. era um lugar PERIGOSO. era LONGE. e eles queriam construir, ali, um bairro, com casas e tudo, lotear um grande espaço de terra e vender casas pras pessoas habitarem esse lugar. até aí tudo bem, eu acho.
mas eles queriam q a arquitetura fosse GREGA, com aquelas colunas, com tudo o q tem direito. e haveria um grande TEMPLO DE MINERVA onde as pessoas poderiam ir para receberem as luzes da ciência e das artes. teria uma vasta biblioteca, com volumes de história, literatura e filosofia. teria JARDINS PERFUMADOS, seria um lugar ILUMINADO, com árvores frondosas, ar puro, para as pessoas passearem, conversando.
mas isso era EM PORTO ALEGRE NO SÉCULO XIX!!! eu NÃO ACEITO!!!
eles obviamente deliravam. eles acreditaram q esse empreendimento seria viável, q daria certo. acreditaram tanto q convidaram as autoridades (o presidente da província e o bispo, as duas autoridades) e fizeram o lançamento da PEDRA FUNDAMENTAL do TEMPLO. alguns meses depois estavam falidos, nada foi construído e tiveram q vender a tal da pedra pra pagar as dívidas. mas eles perderam tempo e dinheiro fazendo e sonhando com esse bairro grego no meio do mato. meu deus, quem eram esses caras?!
é quase tão delirante quanto a ópera no meio da floresta amazônica.
eu queria que o partenon literário tivesse dado certo. mas dado certo mesmo, queria que eles tivessem realmente feito o q pretendiam. algumas das coisas, pelo menos. eu queria ver o que ia ser porto alegre hoje. seria uma cidade melhor? seria uma cidade pior? seria a piada do brasil (mais)?
eu estou completamente ENVOLVIDA por esses caras. chorei quando li sobre a morte do apolinário. eu nem sei como escrever sobre isso, mas como não consigo pensar em outra coisa, eu preciso escrever sobre isso.
certo, eu vou direto ao assunto então: eles queriam construir um bairro grego na zona rural de porto alegre. na zona rural de porto alegre do SÉCULO XIX. em primeiro lugar, era no SÉCULO XIX. em segundo lugar, era em PORTO ALEGRE. e em terceiro lugar era na ZONA RURAL. ou seja: era no meio do mato. era um lugar PERIGOSO. era LONGE. e eles queriam construir, ali, um bairro, com casas e tudo, lotear um grande espaço de terra e vender casas pras pessoas habitarem esse lugar. até aí tudo bem, eu acho.
mas eles queriam q a arquitetura fosse GREGA, com aquelas colunas, com tudo o q tem direito. e haveria um grande TEMPLO DE MINERVA onde as pessoas poderiam ir para receberem as luzes da ciência e das artes. teria uma vasta biblioteca, com volumes de história, literatura e filosofia. teria JARDINS PERFUMADOS, seria um lugar ILUMINADO, com árvores frondosas, ar puro, para as pessoas passearem, conversando.
mas isso era EM PORTO ALEGRE NO SÉCULO XIX!!! eu NÃO ACEITO!!!
eles obviamente deliravam. eles acreditaram q esse empreendimento seria viável, q daria certo. acreditaram tanto q convidaram as autoridades (o presidente da província e o bispo, as duas autoridades) e fizeram o lançamento da PEDRA FUNDAMENTAL do TEMPLO. alguns meses depois estavam falidos, nada foi construído e tiveram q vender a tal da pedra pra pagar as dívidas. mas eles perderam tempo e dinheiro fazendo e sonhando com esse bairro grego no meio do mato. meu deus, quem eram esses caras?!
é quase tão delirante quanto a ópera no meio da floresta amazônica.
20.3.06
7. de volta às tabelas
passei o fim-de-semana entre a confecção das tabelas para a pesquisa e o jogo do roda a roda on line [cujo linque coloquei aqui do lado], com narração do sílvio santos [e com participação da patrícia].
marcus e eu tivemos uma reunião sexta-feira com o benito para tentar sanar algumas primeiras dúvidas q surgiram já no começo dessa nossa longa investida como historiadores. no meu caso, o principal problema era aquele mesmo q já falei aqui: a definição do meu objeto. quem vão ser os integrantes da minha pesquisa?
como eu já disse, consegui uma lista de mais ou menos 400 nomes de pessoas q, em algum momento, foram sócias do partenon literário. o meu negócio era diminuir esse nome para tornar a pesquisa factível [e eu penso q a questão da diminuição até não só pelo tempo, mas também por uma série de outras coisas q eu não sabia muito bem dizer].
após esse sábado e domingo de sol e chuva q passei em cima do computador [o q explica um pouco o post logo abaixo deste...] tenho algumas respostas às minhas questões. talvez sejam ainda respostas parciais, mas eu tenho um horizonte agora.
em primeiro lugar, não adianta eu ficar querendo definir critérios quantitativos para a delimitação dos meus personagens [lugar para onde alguns dos caminhos da minha pesquisa estavam me levando]. a primeira reflexão q tinha q ser feita eu acho q já rolou este fim-de-semana: pq eu preciso delimitar esse grupo? quem eu realmente quero pesquisar?
a resposta tava lá no meu projeto: meu objetivo com essa pesquisa é conhecer um pouco mais a dinâmica do meio intelectual [se é q se pode chamar assim. por enquanto vamos chamar assim.] rio-grandense no século XIX. mas acontece q, no século XIX, as coisas eram muito mais difusas do q hoje. os caras não tinham uma única profissão. e, como o jonas mesmo disse, os políticos em geral se dedicavam à literatura também, em algum momento de suas vidas.
bom... vamos deixar essa parte da história congelada aqui um pouquinho, q eu vou explicar melhor algumas outras coisas q eu andei fazendo... como, por exemplo, tabelas. sempre elas.
fiz inúmeras, de todos os tipos q se possa imaginar. entre elas, fiz também um censo, digamos assim, de quem é q participou das reuniões nos anos de 1872 e 1873 [q são os anos cujas atas ainda existem]. anotei lá numa tabelinha todo mundo q participou de reuniões e quantas vezes participou. só q depois eu não sabia direito o q fazer com aquilo, pq por um lado era uma das únicas informações q eu tinha e q poderia me ajudar a delimitar esse grupo e, por outro, eram informações quantitativas e bobas. tá, eu fiquei com preguiça de pensar em uma palavra melhor do q bobas pra escrever ali. mas foi assim.
como é q eu poderia definir um número de reuniões [por exemplo: 4] e dizer q com uma frequência acima de 4 reuniões [pra pegar o exemplo dado] o cara estava na minha lista de carinhas pra estudar e pra baixo de 4 não estavam? isso não faz nenhum sentido.
então eu resolvi parar de olhar praquelas tabelas todas e pensar NOS CARAS. pensar neles indo lá nas reuniões... em dois anos o cara foi em 4 reuniões. e eu fiquei pensando neles indo e participando e fiquei pensando no q os moveu até lá e q tipo de pessoa eles eram. essas coisas.
aí eu resolvi q, embora o resultado do meu "censo" fosse em números, ele não era um dado quantitativo. ele expressava não só um número de reuniões, mas sim uma forma de se relacionar com a sociedade e com o resto do grupo.
as pessoas q eu gostaria de ter na minha pesquisa, o grupo cujo perfil eu quero conhecer é justamente o grupo de pessoas q, no século XIX em porto alegre, dedicou uma boa parte da sua vida a uma associação literária [no caso o partenon] e levou essa associação a sério como uma parte constituinte da sua rotina e da sua vida. se tinha lá um deputado q foi aprovado como sócio e compareceu a duas reuniões e nunca mais deu as caras em NENHUMA OUTRA atividade em NENHUM OUTRO momento, então esse não é tipo de cara q eu quero incluir na minha pesquisa, mesmo q ele tenha escrito as suas poesias lá no seu quartinho, quando ficava triste. os caras q eu quero são caras q SE ENVOLVIAM. caras q SE DEDICAVAM.
então, se eles se dedicavam vão ter q ter deixado alguma fonte. ou vão ter q ter ido às reuniões, ou vão ter q ter participado de alguma diretoria, ou de alguma comissão, ou vão ter q ter sido lembrados pelos amigos em livros de memória. sei lá. mas esse cara, se se envolveu, alguma coisa deixou. se não deixou, paciência. se deixou, mas essa coisa não existe mais, paciência. toda pesquisa histórica tem essa mesma limitação. não é peculiaridade da minha.
então, sob essa nova perspectiva, tô fazendo uma nova tabela. =))
uma tabela q cruza informações diversas q acabam por dividir os meus amiguinhos em três grupos: o grupo dos "confirmados" [aqueles q, sem dúvida, entram na pesquisa]; o grupo dos "incertos" [aqueles q não entram ainda, mas sim se aparecerem fontes q provoquem uma reviravolta]; e o grupo dos "excluídos" [aqueles q estão fora mesmo. não tem jeito].
no fim das contas, meu objeto é bastante fluido. ele vai sendo criado ao longo do trabalho. bom, por enquanto, tô gostando da maneira como resolvi esse problema. tô pronta pra outros, eu acho.
ah. não deixe de visitar o site do sbt.
marcus e eu tivemos uma reunião sexta-feira com o benito para tentar sanar algumas primeiras dúvidas q surgiram já no começo dessa nossa longa investida como historiadores. no meu caso, o principal problema era aquele mesmo q já falei aqui: a definição do meu objeto. quem vão ser os integrantes da minha pesquisa?
como eu já disse, consegui uma lista de mais ou menos 400 nomes de pessoas q, em algum momento, foram sócias do partenon literário. o meu negócio era diminuir esse nome para tornar a pesquisa factível [e eu penso q a questão da diminuição até não só pelo tempo, mas também por uma série de outras coisas q eu não sabia muito bem dizer].
após esse sábado e domingo de sol e chuva q passei em cima do computador [o q explica um pouco o post logo abaixo deste...] tenho algumas respostas às minhas questões. talvez sejam ainda respostas parciais, mas eu tenho um horizonte agora.
em primeiro lugar, não adianta eu ficar querendo definir critérios quantitativos para a delimitação dos meus personagens [lugar para onde alguns dos caminhos da minha pesquisa estavam me levando]. a primeira reflexão q tinha q ser feita eu acho q já rolou este fim-de-semana: pq eu preciso delimitar esse grupo? quem eu realmente quero pesquisar?
a resposta tava lá no meu projeto: meu objetivo com essa pesquisa é conhecer um pouco mais a dinâmica do meio intelectual [se é q se pode chamar assim. por enquanto vamos chamar assim.] rio-grandense no século XIX. mas acontece q, no século XIX, as coisas eram muito mais difusas do q hoje. os caras não tinham uma única profissão. e, como o jonas mesmo disse, os políticos em geral se dedicavam à literatura também, em algum momento de suas vidas.
bom... vamos deixar essa parte da história congelada aqui um pouquinho, q eu vou explicar melhor algumas outras coisas q eu andei fazendo... como, por exemplo, tabelas. sempre elas.
fiz inúmeras, de todos os tipos q se possa imaginar. entre elas, fiz também um censo, digamos assim, de quem é q participou das reuniões nos anos de 1872 e 1873 [q são os anos cujas atas ainda existem]. anotei lá numa tabelinha todo mundo q participou de reuniões e quantas vezes participou. só q depois eu não sabia direito o q fazer com aquilo, pq por um lado era uma das únicas informações q eu tinha e q poderia me ajudar a delimitar esse grupo e, por outro, eram informações quantitativas e bobas. tá, eu fiquei com preguiça de pensar em uma palavra melhor do q bobas pra escrever ali. mas foi assim.
como é q eu poderia definir um número de reuniões [por exemplo: 4] e dizer q com uma frequência acima de 4 reuniões [pra pegar o exemplo dado] o cara estava na minha lista de carinhas pra estudar e pra baixo de 4 não estavam? isso não faz nenhum sentido.
então eu resolvi parar de olhar praquelas tabelas todas e pensar NOS CARAS. pensar neles indo lá nas reuniões... em dois anos o cara foi em 4 reuniões. e eu fiquei pensando neles indo e participando e fiquei pensando no q os moveu até lá e q tipo de pessoa eles eram. essas coisas.
aí eu resolvi q, embora o resultado do meu "censo" fosse em números, ele não era um dado quantitativo. ele expressava não só um número de reuniões, mas sim uma forma de se relacionar com a sociedade e com o resto do grupo.
as pessoas q eu gostaria de ter na minha pesquisa, o grupo cujo perfil eu quero conhecer é justamente o grupo de pessoas q, no século XIX em porto alegre, dedicou uma boa parte da sua vida a uma associação literária [no caso o partenon] e levou essa associação a sério como uma parte constituinte da sua rotina e da sua vida. se tinha lá um deputado q foi aprovado como sócio e compareceu a duas reuniões e nunca mais deu as caras em NENHUMA OUTRA atividade em NENHUM OUTRO momento, então esse não é tipo de cara q eu quero incluir na minha pesquisa, mesmo q ele tenha escrito as suas poesias lá no seu quartinho, quando ficava triste. os caras q eu quero são caras q SE ENVOLVIAM. caras q SE DEDICAVAM.
então, se eles se dedicavam vão ter q ter deixado alguma fonte. ou vão ter q ter ido às reuniões, ou vão ter q ter participado de alguma diretoria, ou de alguma comissão, ou vão ter q ter sido lembrados pelos amigos em livros de memória. sei lá. mas esse cara, se se envolveu, alguma coisa deixou. se não deixou, paciência. se deixou, mas essa coisa não existe mais, paciência. toda pesquisa histórica tem essa mesma limitação. não é peculiaridade da minha.
então, sob essa nova perspectiva, tô fazendo uma nova tabela. =))
uma tabela q cruza informações diversas q acabam por dividir os meus amiguinhos em três grupos: o grupo dos "confirmados" [aqueles q, sem dúvida, entram na pesquisa]; o grupo dos "incertos" [aqueles q não entram ainda, mas sim se aparecerem fontes q provoquem uma reviravolta]; e o grupo dos "excluídos" [aqueles q estão fora mesmo. não tem jeito].
no fim das contas, meu objeto é bastante fluido. ele vai sendo criado ao longo do trabalho. bom, por enquanto, tô gostando da maneira como resolvi esse problema. tô pronta pra outros, eu acho.
ah. não deixe de visitar o site do sbt.
11.3.06
5. restrições
comecei a restringir minha lista de nomes a pesquisar. está sendo difícil, mas com uma dificuldade diferente da que eu imaginava. não é difícil por ser chato olhar o fichamento de cada ata em busca de quem efetivamente comparecia nas reuniões. essa parte é a mais automática e a mais simples.
o complicado é uma parte que também é de certa forma divertida, por ser um trabalho quase de detetive. é descobrir quem é quem quando as atas não são claras.
eu explico: às vezes aparece ali só o sobrenome, digamos, carvalho. aí eu vou lá na minha planílha e marco um xis no carvalho, que compareceu a uma reunião do partenon. aí, no dia seguinte, aparece o crescentino de carvalho na reunião. tá e aí? é o mesmo carvalho da reunião anterior, ou não?
pra ter certeza desse tipo de coisa eu tenho feito malabarismos e, algumas vezes, não dá nunca pra descobrir. o pior é q eu acho necessário saber quem comparecia na maior parte as reuniões do grupo pra poder determinar quem continua na pesquisa. só permanece quem participa. se o cara é sócio e nunca pintou numa reuniãozinha sequer, então ele não pensava muito a respeito do partenon, não tomava muitas decisões e, portanto, não era o partenon. não fazia o partenon.
outro ponto de dificuldade é estipular uma quantidade de participações em reuniões que eu considere relevante pra que o sujeito passe a ser considerado importante pra associação. quer dizer, eu não pretendo encontrar um número exato de reuniões a q eles devem ter ido pra q signifique q eles eram pessoas participantes das decisões do grupo. não é isso. mas, em geral, nas atas as informações q eu tenho são pouco informativas... são só nomes mesmo...
então se o landell foi a duas reuniões e depois desapareceu, será q ele era significativo pro grupo? será q ele pode ser considerado qdo eu estiver montando o perfil sociológico do grupo? ele pode ter ido só pra ver como é q era, sei lá. daí viu q era meio chato, não era muito a praia dele e nunca mais foi. ou então o landell se mudou pro interior do estado, ou foi pro rio de janeiro estudar e não pôde mais ir às reuniões - no entanto ele seguia trocando correspondências com o apolinário e de vez em quando mandava uns livros e jornais do rio pro pessoalzinho de porto alegre. nesse caso, eu acho q ele era parte do partenon literário sim. no caso anterior eu acho q não.
tem alguns casos q são inquestionáveis, tipo o apolinário porto alegre. ia a todas as reuniões, foi presidente, batalhava pelo grupo. o partenon literário era parte da vida dele. era um projeto pessoal do cara, eu penso.
outro caso: caldre e fião. nas poucas atas q restaram ele pouco aparece. ele quase não ia a reuniões e tal. no entanto o caldre e fião era uma figura importante dentro do grupo pq eu sei q ele até doou uns terrenos pra construir a sede. e eu sei q a sede foi meio q idéia dele. e eu sei q ele tinha várias idéias - deixava a gurizada tocar as coisas pra frente, mas pensava muito em como ajudá-los, orientava. pelo menos é q parece.
agora, vamos supor q tem um zé mané q pouco aparece nas atas. foi a uma meia dúzia de reuniões, sem muita continuidade. de vez em quando ele aparecia. eu posso não saber pq não tem fontes, mas de repente esse zé mané era um cara q, embora não estivesse nas reuniões, costumava encontrar os irmãos porto alegre no teatro são pedro. e, nesses encontros, após algum espetáculo, o cara dava dicas, perguntava pelo grupo, dava livros, ajudava da forma q lhe fosse possível. enfim, pode ser q o cara se importasse e participasse da construção da sociedade mesmo sem ir às reuniões. só q isso eu nunca vou saber.
essa parte, pra mim, é a mais difícil. como definir quem entra e quem sai da pesquisa? às vezes eu penso q só vou conseguir resolver esse dilema na hora de escrever a dissertação. pq vai ser nesse momento q eu vou poder deixar bem claro até q ponto eu consegui chegar, o q as fontes diziam e o q elas não deixavam claro. eu vou poder ser meio natalie davis (até parece!) e dizer: olha, até pode ser q tenha outros fulanos tão importantes qto esses q eu peguei. mas isso, hj em dia, é impossível de saber. o meu perfil do grupo, portanto, é limitado e não é nem um pouco científico - no sentido q muita gente ainda entende a ciência. mas foi o perfil q deu pra conseguir.
o complicado é uma parte que também é de certa forma divertida, por ser um trabalho quase de detetive. é descobrir quem é quem quando as atas não são claras.
eu explico: às vezes aparece ali só o sobrenome, digamos, carvalho. aí eu vou lá na minha planílha e marco um xis no carvalho, que compareceu a uma reunião do partenon. aí, no dia seguinte, aparece o crescentino de carvalho na reunião. tá e aí? é o mesmo carvalho da reunião anterior, ou não?
pra ter certeza desse tipo de coisa eu tenho feito malabarismos e, algumas vezes, não dá nunca pra descobrir. o pior é q eu acho necessário saber quem comparecia na maior parte as reuniões do grupo pra poder determinar quem continua na pesquisa. só permanece quem participa. se o cara é sócio e nunca pintou numa reuniãozinha sequer, então ele não pensava muito a respeito do partenon, não tomava muitas decisões e, portanto, não era o partenon. não fazia o partenon.
outro ponto de dificuldade é estipular uma quantidade de participações em reuniões que eu considere relevante pra que o sujeito passe a ser considerado importante pra associação. quer dizer, eu não pretendo encontrar um número exato de reuniões a q eles devem ter ido pra q signifique q eles eram pessoas participantes das decisões do grupo. não é isso. mas, em geral, nas atas as informações q eu tenho são pouco informativas... são só nomes mesmo...
então se o landell foi a duas reuniões e depois desapareceu, será q ele era significativo pro grupo? será q ele pode ser considerado qdo eu estiver montando o perfil sociológico do grupo? ele pode ter ido só pra ver como é q era, sei lá. daí viu q era meio chato, não era muito a praia dele e nunca mais foi. ou então o landell se mudou pro interior do estado, ou foi pro rio de janeiro estudar e não pôde mais ir às reuniões - no entanto ele seguia trocando correspondências com o apolinário e de vez em quando mandava uns livros e jornais do rio pro pessoalzinho de porto alegre. nesse caso, eu acho q ele era parte do partenon literário sim. no caso anterior eu acho q não.
tem alguns casos q são inquestionáveis, tipo o apolinário porto alegre. ia a todas as reuniões, foi presidente, batalhava pelo grupo. o partenon literário era parte da vida dele. era um projeto pessoal do cara, eu penso.
outro caso: caldre e fião. nas poucas atas q restaram ele pouco aparece. ele quase não ia a reuniões e tal. no entanto o caldre e fião era uma figura importante dentro do grupo pq eu sei q ele até doou uns terrenos pra construir a sede. e eu sei q a sede foi meio q idéia dele. e eu sei q ele tinha várias idéias - deixava a gurizada tocar as coisas pra frente, mas pensava muito em como ajudá-los, orientava. pelo menos é q parece.
agora, vamos supor q tem um zé mané q pouco aparece nas atas. foi a uma meia dúzia de reuniões, sem muita continuidade. de vez em quando ele aparecia. eu posso não saber pq não tem fontes, mas de repente esse zé mané era um cara q, embora não estivesse nas reuniões, costumava encontrar os irmãos porto alegre no teatro são pedro. e, nesses encontros, após algum espetáculo, o cara dava dicas, perguntava pelo grupo, dava livros, ajudava da forma q lhe fosse possível. enfim, pode ser q o cara se importasse e participasse da construção da sociedade mesmo sem ir às reuniões. só q isso eu nunca vou saber.
essa parte, pra mim, é a mais difícil. como definir quem entra e quem sai da pesquisa? às vezes eu penso q só vou conseguir resolver esse dilema na hora de escrever a dissertação. pq vai ser nesse momento q eu vou poder deixar bem claro até q ponto eu consegui chegar, o q as fontes diziam e o q elas não deixavam claro. eu vou poder ser meio natalie davis (até parece!) e dizer: olha, até pode ser q tenha outros fulanos tão importantes qto esses q eu peguei. mas isso, hj em dia, é impossível de saber. o meu perfil do grupo, portanto, é limitado e não é nem um pouco científico - no sentido q muita gente ainda entende a ciência. mas foi o perfil q deu pra conseguir.
9.3.06
3. esse deveria ter vindo há uns dias
tenho medo de pensar no dia em q eu tiver q começar a restringir meu grupo de prosopografados. tá, 400 são muitos, não adianta nem tentar. eu nunca conseguiria informações sobre todos eles. mas diminuir esse número envolve uma aproximação com os 400 pra ver quem merece e quem não merece permanecer.
eu tenho tido uma consciência sacana de q esse é o próximo passo. tem q ser. senão como eu vou chegar na primeira reunião com o benito? ele ainda pensa q o número total é 173, mas q eu tô restringindo. imagina qdo ele souber q são 400 e eu não tô pensando muito sobre isso...
* * *
uma coisa q era quase uma dor de cabeça, mas sem ser, me acompanhou ao longo de todo o dia. uma coisa q me enchia o saco e me impossibilitava de dar qualquer explicação sobre qualquer coisa, pra quem quer q fosse.
* * *
no futuro, quero colocar aqui do ladinho da tela, do lado esquerdo de quem olha pra tela, um desenhinho q fiz, pra enfeitar. pode ser q eu coloque do lado direito tb. dificilmente vou conseguir fazer isso sozinha, então, se meu irmão não em ajudar, o mais provável é q fique sem desenho nenhum.
eu tenho tido uma consciência sacana de q esse é o próximo passo. tem q ser. senão como eu vou chegar na primeira reunião com o benito? ele ainda pensa q o número total é 173, mas q eu tô restringindo. imagina qdo ele souber q são 400 e eu não tô pensando muito sobre isso...
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uma coisa q era quase uma dor de cabeça, mas sem ser, me acompanhou ao longo de todo o dia. uma coisa q me enchia o saco e me impossibilitava de dar qualquer explicação sobre qualquer coisa, pra quem quer q fosse.
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no futuro, quero colocar aqui do ladinho da tela, do lado esquerdo de quem olha pra tela, um desenhinho q fiz, pra enfeitar. pode ser q eu coloque do lado direito tb. dificilmente vou conseguir fazer isso sozinha, então, se meu irmão não em ajudar, o mais provável é q fique sem desenho nenhum.
7.3.06
1. considerações
por algum tempo vivi uma certa fixação pela minha pesquisa. não fazia mais nada q não se referisse a ela, apesar da preguiça de frequentar arquivos no verão. e, mesmo sem ir ao arquivo, minhas atividades domésticas se resumiam a procurar os nomes dos sujeitos q estudo na internet. detalhe: são mais de 400 pessoas.
organizei obsessivamente as 4 tabelas q vou precisar ao longo desse ano, em ordem alfanumérica. depois, procurei um a um no google.
reconheço q é uma fase introspectiva pela qual estou passando, já há algum tempo. com a vinda da mariana para porto alegre nesses dias, a coisa mudou de figura, a despeito do meu pouco jeito pra ocasiões sociais. talvez lamentavelmente [?] eu tenha perdido o jeito pra isso. ou talvez eu nunca tenha tido mesmo.
mesmo quando estou ocupada em me distrair, meu pensamento sempre acaba caindo nos 5000 campos das tabelas q preencherei no decorrer do ano. meu desejo é q eles estejam completos, repletos de informações. a partir da semana q vem volto com marcus pro arquivo.
eu quero mapas da cidade no período em q eles viviam aqui. eu quero saber onde eles moravam e o q eles faziam.
e eu sinto q isso torna minhas conversas demasiado restritas, pois é um assunto absolutamente desinteressante para a maioia das pessoas. é quase um autismo. talvez a maioria das pessoas pense q é quase uma genealogia, o q eu faço. uma enfadonha genealogia.
e eu, eu não vejo mais porquê falar de música, por exemplo, se todo mundo já sabe q o q eu gosto de ouvir não existe mais há cerca de 40 anos e, provavelmente, esse gosto não vai mudar tão cedo. não se depender das bandas novas. eu não quero falar sobre o q todo mundo já sabe a respeito, por exemplo, dos beatles. a única coisa q pode me fazer falar de música hj em dia são boleros e tangos pré-piazzola. mas mesmo assim daria muito trabalho começar a conhecer essas coisas. em rodas de pessoas onde o assunto predominantemente é música eu já estou na fase de calar. ou então comentar como é ridícula a banda q aparece na novela q dá de tarde.
ainda sinto de certa forma a mesma fixação pela pesquisa, só q agora de um jeito mais preguiçoso ainda. agora tenho preguiça de abrir as tabelas. o word vai demorar pra abrir, todos sabem. não é mais só uma antiga e até estimada preguiça de ir pro centro pesquisar. aquela q já era inseparável de mim. agora é uma coisa profunda e imobilizante. talvez seja o reflexo de uma semana de um ritmo intenso demais pra mim. fui em mais festas nessa semana do q em todo o ano passado [?].
as pessoas da minha idade gostam de comentar festas q frequentaram. eu gosto de falar q seria desejável pra mim morar num barco. e eu tb quero aprender a cozinhar - e cozinhar coisas saudáveis. pode ser o começo de um longo processo q me transformará em uma mulher de trinta anos.
ok, vou abrir minhas tabelas.
organizei obsessivamente as 4 tabelas q vou precisar ao longo desse ano, em ordem alfanumérica. depois, procurei um a um no google.
reconheço q é uma fase introspectiva pela qual estou passando, já há algum tempo. com a vinda da mariana para porto alegre nesses dias, a coisa mudou de figura, a despeito do meu pouco jeito pra ocasiões sociais. talvez lamentavelmente [?] eu tenha perdido o jeito pra isso. ou talvez eu nunca tenha tido mesmo.
mesmo quando estou ocupada em me distrair, meu pensamento sempre acaba caindo nos 5000 campos das tabelas q preencherei no decorrer do ano. meu desejo é q eles estejam completos, repletos de informações. a partir da semana q vem volto com marcus pro arquivo.
eu quero mapas da cidade no período em q eles viviam aqui. eu quero saber onde eles moravam e o q eles faziam.
e eu sinto q isso torna minhas conversas demasiado restritas, pois é um assunto absolutamente desinteressante para a maioia das pessoas. é quase um autismo. talvez a maioria das pessoas pense q é quase uma genealogia, o q eu faço. uma enfadonha genealogia.
e eu, eu não vejo mais porquê falar de música, por exemplo, se todo mundo já sabe q o q eu gosto de ouvir não existe mais há cerca de 40 anos e, provavelmente, esse gosto não vai mudar tão cedo. não se depender das bandas novas. eu não quero falar sobre o q todo mundo já sabe a respeito, por exemplo, dos beatles. a única coisa q pode me fazer falar de música hj em dia são boleros e tangos pré-piazzola. mas mesmo assim daria muito trabalho começar a conhecer essas coisas. em rodas de pessoas onde o assunto predominantemente é música eu já estou na fase de calar. ou então comentar como é ridícula a banda q aparece na novela q dá de tarde.
ainda sinto de certa forma a mesma fixação pela pesquisa, só q agora de um jeito mais preguiçoso ainda. agora tenho preguiça de abrir as tabelas. o word vai demorar pra abrir, todos sabem. não é mais só uma antiga e até estimada preguiça de ir pro centro pesquisar. aquela q já era inseparável de mim. agora é uma coisa profunda e imobilizante. talvez seja o reflexo de uma semana de um ritmo intenso demais pra mim. fui em mais festas nessa semana do q em todo o ano passado [?].
as pessoas da minha idade gostam de comentar festas q frequentaram. eu gosto de falar q seria desejável pra mim morar num barco. e eu tb quero aprender a cozinhar - e cozinhar coisas saudáveis. pode ser o começo de um longo processo q me transformará em uma mulher de trinta anos.
ok, vou abrir minhas tabelas.
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